sábado, 13 de março de 2010

Praças de touros de Lisboa (II)

A praça de touros do Salitre, situada nos terrenos da rua com o mesmo nome, terá sido construída entre 1777 e 1780. Rodovalho Duro afirma que a praça foi inaugurada em 4 de Junho de 1790. No entanto, o olissipógrafo Gustavo de Matos Sequeira teve notícia «por alguns bilhetes de entrada que escaparam ao lixo, de terem havido corridas no Salitre antes de 1790» («Depois do Terramoto», vol.II).
Foi seu construtor e primeiro empresário o boticário João Gomes Varela, que, segundo Matos Sequeira, «também empunhava o rojão e sobraçava a capa de toureiro a pé».  De acordo com o mesmo autor, a praça «era sobre o quadrado. De um lado do anfiteatro tinha camarotes, para os aficionados de cotação social, destinando-se um deles à autoridade que era, então, o corregedor do bairro dos Remolares; do outro lado, lugares de sombra e sol. Em toda a volta, bancadas para o povo miúdo. Posteriormente alterou-se o aspecto do tauródromo e a forma quadrada foi adoçada de modo a apresentar um círculo. Assim era em 1879, antes da demolição.»
Pisaram a arena do Salitre cavaleiros como João António Maria Gambetta, José António de Sousa Belo, João Ferreira Grilo e António Máximo de Amorim Veloso. A pé, terão actuado os bandarilheiros António do Carmo Faria, Pedro Rodrigues e José Rodrigues e ainda Sebastião Garcia, também conhecido por Calabaça. Este último terá nascido em Espanha e aí actuado como matador entre 1816 e 1820. «Apesar de ter boa figura e grande simpatia no ruedo e fora dele, o seu trabalho não era muito aceitável», o que o levou a emigrar para Portugal (José Maria de Cossío, «Los Toros», vol. 3).
Sebastião Garcia tornou-se popularíssimo no nosso país, sendo considerado um dos melhores lidadores da sua época. Amigo e confidente do rei D. Miguel, encontrou a morte junto deste. «Quando D. Miguel, nos derradeiros dias do seu reinado esteve em Santarém, talvez já suspeitando de que em breve ficaria privado do seu divertimento favorito, organizou algumas brincadeiras, num pátio da cidade. Numa delas, Calabaça saiu para o touro que o carregou obrigando-o a tentar escapar-se por um janela que um campino estupidamente fechou, dando em resultado o toureiro ser colhido com tal gravidade que das feridas veio a morrer no hospital de Santarém» (Francisco Câncio, «Arquivo Alfacinha», vol. I).

Um comentário:

Helder disse...

Parabéns pela enorme qualidade dos seus posts e pelo aporte de conhecimento que partilha com todos nós, fazendo-nos perceber o enorme valor, a riqueza e o património que representa a cultura taurina.