sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Uma reflexão

O Inverno traz consigo uma pausa que incita à reflexão. É tempo de estatísticas, de balanços e análises variadas. Há quem se fique pelas reflexões pela rama; outros vão ao cerne das questões e as conclusões a que chegam são sempre dolorosas.
Uma vez mais, dou por mim a pensar sobre o toureio em Portugal. Não cuido de saber se o toureio a cavalo à portuguesa perde terreno perante o rejoneo, nem qual o futuro do toureio a pé no nosso país, nem as últimas manobras dos anti-taurinos. Tento ir mais fundo, avançar para questões mais subterrâneas, às quais a grande maioria dos aficionados parece ser estranha.
Penso, por exemplo, nos toiros que se lidam em Portugal, e não posso deixar de me perguntar: que outro país do mundo em que a corrida está implantada, nega aos seus espectadores o direito de ver sair à praça toiros íntegros? Isto é, toiros como vêm do campo, sem estarem embolados ou com as pontas dos cornos serradas. Se o toiro é o centro do espectáculo – por isso se fala em touradas -, como admitir, sem uma profunda vergonha, a fraude que constitui a diminuição das suas defesas?
Como sustentar que o doping no desporto é uma vigarice e tolerar o serrote ou as embolas nos toiros?
Dizem-me que esta e outras particularidades são o resultado da existência de uma corrida de toiros «à portuguesa», com cavaleiros e forcados, diferente da outra corrida, dita «à espanhola». Contentar-me-ia com a explicação, se a lide «à espanhola» praticada nas nossas praças tivesse a verdade que o toureio implica. Mas o certo é que não tem, pela falta da corrida integral, com reses sem hastes manipuladas, com a sorte de varas e a morte do toiro na arena.
Em resumo: temos um «arranjo» do toureio e das suas normas à medida de cavaleiros e forcados, de que resultou a corrida «à portuguesa», e um toureio a pé dito «à espanhola», mas que foi, na prática, inventado pelos políticos e burocratas que proibiram a corrida integral entre nós. Com a complacência, claro está, dos pseudo-aficionados, pseudo-toureiros e de muitos outros ‘pseudos’ que por cá abundam.
Tudo espremido, o que resulta é a angustiante sensação de se estar à beira de um lago de mentiras, de que tantos, de tão embrenhados nele, não se apercebem ou não se querem aperceber. (Imagem: Cássio Mello)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

José Casimiro Júnior


Un brindis a caballo, la más bella
flor de la portuguesa cortesía.
Cundo el toro arrancó, ya conocía
su obligación de conjugar su estrella
con el signo violento del jinete.

No supo de esto el rey Alfonso el Sabio?
A rematar la elíptica en un brete
no bastarán armellas y astrolabio?

Cometa vertical, el hierro agudo
en lo alto del morrillo hincó su agravio.
Torció el blanco caballo grupa y cola
y, al galopar arábigo y sonoro,
estalló al aire alegre banderola.

Gerardo Diego («La Suerte o la Muerte»)

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Recordando Nicanor Villalta



O diestro Nicanor Villalta foi um expoentes da chamada Idade de Prata do toureio, que se estendeu desde a morte de Joselito, em 1920, até à Guerra Civil espanhola. Nascido em Cretas (Teruel) em 1897, Villalta não podia ser um dos toureiros estilistas (hoje chamar-lhes-íamos artistas) que abundaram naquela época. A sua elevada estatura impedia-o de emular com um António Márquez, um Gitanillo de Triana ou um Victoriano de la Sena. Contudo, o seu toureio de muleta tinha«bizarria e valor», no dizer de Cossío, e as suas estocadas eram impressionantes pela segurança e valentia.
Villalta, que se retirou do toureio em 1935, foi um dos protagonistas do documentário «Juguetes Rotos», realizado por Manolo Summers, em 1966. A preto e branco, o documentário vai ao encontro de antigas glórias do toureio, do futebol e do boxe, captando-lhes o que lhes resta da grandeza passada. São agora brinquedos quebrados (juguetes rotos), a viver em asilos ou em moradias tão velhas como eles.
Frente às câmaras, Nicanor Villalta vestiu-se de luces pela última vez, e lidou, aos 68 anos, um novilho, numa Monumental de Madrid deserta. Com que majestade o velho matador atravessa a arena de Las Ventas, palco de tantos dos seus triunfos... E com que toreria enfrenta o novilho, que no fim da inédita faena o colhe aparatosamente... Nicanor Villalta, exemplo de bravura e honradez profissional, morreu em Madrid, em 1980.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Coisas que inquietam

A imprensa taurina do país vizinho anunciou recentemente o fim de três antigas e famosas ganadarias de Salamanca: Atanásio Fernández, Clairac e Sanchéz Fabrés. A notícia seria sempre de lamentar, mas as considerações que sobre o assunto são feitas em alguns blogues, não podem deixar de inquietar os aficionados. Cito, traduzindo, o que se lê no blog Hasta el rabo todo es toro: "Em cada caso há motivos diferentes: problemas sanitários, económicos ou simplesmente será a lei da vida, esta em que os filhos herdam dos pais parte do genoma, dinheiros e fazendas, mas não a afición desmedida ao touro." No entanto, mais do que os problemas enunciados, a razão última da morte de certas ganadarias será o veto das actuais figuras, que preferem toiros mais fáceis - da linha Juan Pedro Domecq- e que oferecem maiores garantias de êxito. Prossegue o blog: "Como nos tempos do alemão baixinho e com franja, tudo o que não seja da 'raça superior' deve ser exterminado". Cada vez que uma dessas figuras mata um Juan Pedro, "está condenando à morte, por exemplo, a um atanásio num pestilento matadouro de Salamanca". (Foto: Manolete e Atanásio Fernández)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Da Rússia, com afición


Chama-se Loky, é pintora e vive em Moscovo. Declara-se encantada com a cultura, a história e as tradições de Espanha, entre elas a corrida de touros, como arte e como espectáculo. Para mostrar como os seus olhos de artista perspectivam o fenómeno taurino, criou o blog Loca un Poco, no qual se podem apreciar algumas magníficas aguarelas. Para ver e desfrutar.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Artista até de bicicleta

Foi uma das grandes esperanças dos aficionados
sevilhanos do início dos anos 80. E o caso não era para menos: Pepe Luis Vázquez Silva era filho do imenso Sócrates de San Bernardo, um dos mais perfeitos intérpretes do toureio natural, perfumado pelas florituras do duende, que dá fama à capital andaluza. Depois de uma alternativa de sonho - concedida por seu tio Manolo Vázquez, com o apadrinhamento de Curro Romero, em 1981 -, o jovem Pepe Luis não cumpriu as expectativas. Era (é) um toureiro de detalhes, de mão feita para os lentos voos da muleta, e não para a agressividade da estocada. Depois de faenas de arte pura, muitas orelhas se lhe foram por falhar com a espada. Embora não se tenha retirado oficialmente, os contratos foram decaindo. Pepe Luis Vázquez deixou de aparecer nos cartéis, dedicou-se ao ensino, na escola taurina de Sevilha, e a tourear em festivais. A revista «Taurodelta», da empresa que rege a praça de Las Ventas, entrevistou-o no seu último número, revelando um homem de vincada personalidade. Um toureiro de inspiração, sem a capacidade «fuera de lo normal» dos diestros de hoje, que «pegan pases a todos los toros». Toureiro na praça e en la calle, a quem alguém, vendo-o pedalar pelas ruas de Sevilha, disse: «hasta montado en bicicleta tienes arte». (Foto: ambitotoros.blogspot.com)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Lévi-Strauss e a tauromaquia


O filósofo francês Claude Lévi-Strauss, recentemente falecido, interessou-se pelo fenómeno taurino e reflectiu sobre ele. Xavier Klein, no blog camposyruedos, recorda algumas opiniões do mestre do estruturalismo sobre a matéria. Lévi-Strauss considerava a tauromaquia «um caso de sobrevivência único e atípico», numa sociedade dominada por valores que são tantas vezes a antítese do confronto homem/toiro. Por isso, o filósofo partilhava da opinião daqueles que sublinhavam o apagamento do carácter ritual do toureio e o triunfo da dimensão comercial. Pessimista, temia que, um dia, tudo acabasse numa mascarada, «como os índios que fazem a dança da chuva para agradar aos turistas». As culturas que resistem, salientava, são as que resistem e não transigem quanto aos seus modos de expressão. Essa será a única forma de preservar os valores autênticos do toureio.