A década de 1930 é considerada a «idade de ouro» do cartelismo taurino. O desenvolvimento das técnicas de impressão conjuga-se com o aparecimento de uma plêiade de artistas do cartaz, que tem em Ruano Llopis (1879-1950) e Roberto Domingo (1883-1956) as suas figuras cimeiras. Dos pincéis dos cartelistas nascem composições plenas de vida, luz e dinamismo, numa paleta de tons que recria eloquentemente todo o calor e emoção que rodeia a Festa. Para este aperfeiçoamento contribuiu sobremaneira a revista taurina «La Lidia», que se publicou entre 1882 e 1927. Considerada a melhor da sua época, a revista teve a colaboração de ilustradores de alto nível, como Daniel Perea e Ángel Lizcano, que com a sua imaginação e criatividade abriram novos caminhos à arte do cartelismo taurino.
Os cartéis da «idade de ouro» caracterizam-se pelo abandono do barroquismo que marcava os de eras anteriores. Desaparecem as cenas múltiplas, os ornamentos pesados e o excesso de elementos decorativos. O cartel-tipo de um artista como Ruano Llopis, por exemplo, apresenta uma cena única, em que o elemento dominante pode ser uma figura feminina, uma sorte do toureio ou um touro, pura e simplesmente. Porém, seja com uma manola, um passe de muleta ou um touro de temível trapio, as obras de Ruano Llopis emanam vivacidade e cor. De salientar que os melhores cartéis desta época são produzidos pela mesma casa, a Litografia Ortega, de Valência, ainda hoje existente.
O cartelismo português conhece também melhorias evidentes. Muitos anúncios do Campo Pequeno dos anos 30/40 apresentam um grafismo de alta qualidade, da autoria de ilustradores como Alfredo Morais, Alonso (pseudónimo de Joaquim Guilherme Santos Silva) e outros. De Alonso, reproduz-se um cartel de 26 de Abril de 1931, duma corrida em que participaram os cavaleiros Simão da Veiga e Simão da Veiga Júnior e o matador espanhol Manolo Bienvenida. Ao lado, de autor que não conseguimos identificar (Ant. M. Santos?), um cartel nitidamente influenciado por Ruano Llopis, datado de 8 de Agosto de 1940, com Simão da Veiga e os três dos irmãos Bienvenida, Pepe, António e Ángel Luís.
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quarta-feira, 7 de abril de 2010
segunda-feira, 29 de março de 2010
Um grito na parede: origem e evolução do cartel taurino (II)
A Revolução Industrial (séculos XVIII-XIX) veio mecanizar e automatizar as artes gráficas. Surgem novas técnicas como a litografia e a cromolitografia, que vieram aperfeiçoar os desenhos e facilitar a impressão a cores. Aplicadas ao cartel taurino a partir de 1880, estas novas técnicas beneficiaram-no notavelmente. O tosco grafismo dos cartéis originários é substituído por imagens de apurada elaboração, cheias de detalhes e elementos decorativos, monocromáticas umas, outras com várias cores. Outra novidade desta época é o aparecimento dos chamados «programas de mão». Aos cartéis murais, de dois e mais metros, juntam-se folhetos de pequenas dimensões, que são distribuídos ao público.
A transição entre os séculos XIX e XX é marcada culturalmente por uma diversidade de correntes: romantismo tardio, simbolismo, modernismo. As artes gráficas reflectem esta variedade de estilos e vivem momentos de fulgor. O cartelismo taurino é enriquecido com novos motivos e linguagens. Exploram-se as distintas fases da festa, com uma ou várias cenas que vão desde os touros no campo até ao momento da lide. Num registo barroco, sobrecarrega-se o conjunto com todo o tipo de símbolos: cabeças de touros, leques, utensílios da lide, grinaldas, brasões, etc.. Há todo um efeito teatral de «cartel dentro do cartel». Veja-se o que aqui se reproduz, datado de 1915. À luz de um candeeiro (é a inauguração das touradas nocturnas no Campo Pequeno...) um grupo de espectadores aponta para os nomes dos lidadores, o cavaleiro José Casimiro e o matador Agustín García Malla, numa composição de magnífico efeito.
quarta-feira, 24 de março de 2010
Um grito na parede: origem e evolução do cartel taurino (I)
Alguém chamou ao cartaz «um grito na parede». Porque quando o cartaz era o principal meio publicitário ou propagandístico, e as paredes das ruas o seu espaço natural, ele devia ter a força de um grito capaz de atrair a atenção de quem passava. No antigo e variadíssimo universo dos cartazes, destacam-se os que anunciavam a realização de corridas de toiros: os cartéis taurinos.
Em Espanha, o primeiro cartel assinalado é de 1737. Publicita uma função taurina em Madrid, apenas com a actuação de cavaleiros. Entre nós, a inexistência de estudos nesta matéria não permite uma datação precisa. Mas sabe-se que em meados do século XVIII os programas das corridas realizadas no Terreiro do Paço eram afixados num mastro colocado no centro da praça. Uma notícia de 18 de Agosto de 1752, publicada na «Gazeta de Lisboa», reza: «A 11 se fixou no Mastro do Terreiro do Paço (índice da festividade dos Touros) um Edital pelo qual se adverte a todos que esta terá princípio na segunda-feira, 28 deste mês.»
Begoña Torres González, estudiosa do cartel taurino, escreve que durante o século XVIII os cartéis são «de formato horizontal, enquadrados por uma orla tipográfica e um título com a fórmula de rigor: ‘O Rei Nosso Senhor (que Deus guarde) foi servido de assinalar…’. Este esquema mantém-se ininterrupto até aos anos 40 do século XIX» (revista «Museo», nº 3, 1998). A partir daí verificam-se mudanças. O cartel adquire um formato vertical e «as tradicionais fórmulas da realeza» desaparecem, «para anotar unicamente, em grandes maiúsculas: ‘Praça de Touros de…’».
Exemplo destas alterações é um cartel da praça do Campo de Santana, de 1860: vertical, com o nome da praça e o número de reses a lidar em grande destaque. Com menor realce, o nome do cavaleiro – Diogo Henriques Bettencourt- e dos bandarilheiros. Como era típico dos cartéis da época, os caracteres são de diferentes tipos. Salientem-se os pesados caracteres que compõem a frase «14 TOUROS», decorados com elementos vegetalistas.
A simplicidade destes primeiros prospectos, realça Begoña Torres González, deriva do facto do cartel taurino se tratar «de um tipo de impresso eminentemente popular», que não requeria um tipo de letra único, nem tinha «preocupações estéticas ou de originalidade.» Mas esta situação alterou-se, como adiante veremos.
Em Espanha, o primeiro cartel assinalado é de 1737. Publicita uma função taurina em Madrid, apenas com a actuação de cavaleiros. Entre nós, a inexistência de estudos nesta matéria não permite uma datação precisa. Mas sabe-se que em meados do século XVIII os programas das corridas realizadas no Terreiro do Paço eram afixados num mastro colocado no centro da praça. Uma notícia de 18 de Agosto de 1752, publicada na «Gazeta de Lisboa», reza: «A 11 se fixou no Mastro do Terreiro do Paço (índice da festividade dos Touros) um Edital pelo qual se adverte a todos que esta terá princípio na segunda-feira, 28 deste mês.»
Begoña Torres González, estudiosa do cartel taurino, escreve que durante o século XVIII os cartéis são «de formato horizontal, enquadrados por uma orla tipográfica e um título com a fórmula de rigor: ‘O Rei Nosso Senhor (que Deus guarde) foi servido de assinalar…’. Este esquema mantém-se ininterrupto até aos anos 40 do século XIX» (revista «Museo», nº 3, 1998). A partir daí verificam-se mudanças. O cartel adquire um formato vertical e «as tradicionais fórmulas da realeza» desaparecem, «para anotar unicamente, em grandes maiúsculas: ‘Praça de Touros de…’».
Exemplo destas alterações é um cartel da praça do Campo de Santana, de 1860: vertical, com o nome da praça e o número de reses a lidar em grande destaque. Com menor realce, o nome do cavaleiro – Diogo Henriques Bettencourt- e dos bandarilheiros. Como era típico dos cartéis da época, os caracteres são de diferentes tipos. Salientem-se os pesados caracteres que compõem a frase «14 TOUROS», decorados com elementos vegetalistas.
A simplicidade destes primeiros prospectos, realça Begoña Torres González, deriva do facto do cartel taurino se tratar «de um tipo de impresso eminentemente popular», que não requeria um tipo de letra único, nem tinha «preocupações estéticas ou de originalidade.» Mas esta situação alterou-se, como adiante veremos.
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