quarta-feira, 24 de junho de 2009

Sobre o temple e a pega

No vocabulário taurino, a palavra temple é uma das mais usadas. Enquanto conceito, é também muito discutido. Diz-se muitas vezes que o temple consiste em ajustar o movimento do engano – capote ou muleta – à velocidade da investida do touro. Será isso, mas não apenas isso.
Um dicionário de língua espanhola diz-nos que templar significa «temperar», «moderar», «suavizar», «amenizar». Quem templa, ameniza ou modera qualquer coisa. No caso do toureio, a investida do cornúpeto. O toureiro que templa suaviza, molda o ímpeto do touro, tornando a lide possível. Como se diz muitas vezes, ensina-o a investir. E como se consegue isso? Em primeiro lugar, e aqui entra o que acima se referiu, ajustando a deslocação da muleta ao movimento do touro, evitando os indesejáveis enganchones. Mas é óbvio que isso é insuficiente para lhe templar, moderar ou suavizar a investida. Para tal, o toureiro deve ministrar os passes que o adversário requer. Deve dar-lhe mais ou menos passes ‘de castigo’, ter atenção à altura a que coloca o engano, à circularidade do passe, etc.. E tudo isto deve ser feito de acordo com as regras: o diestro deve citar, embarcar o adversário no engano, correr a mão, rematar e deixar o touro pronto para outro passe.
Intimamente ligado com o temple, temos o mando. Sem templar não se manda e sem mandar não se templa. E uma e outra coisa não se conseguem sem parar o touro. Parar, templar e mandar são os três vértices inseparáveis do triângulo do toureio.
Vêm esta considerações a propósito de ultimamente se ouvir dizer, em especial a alguns comentadores televisivos, que os forcados templam. E porquê? Porque, segundo as luminárias do pequeno écran, quando o touro investe e o forcado da cara recua, este adapta a sua velocidade à acometida do animal. E pronto, isso é suficiente para existir temple.
Se o corpo do forcado se equiparar ao capote ou à muleta e o temple se resumir à singela noção apresentada em primeiro lugar, até poderia existir. Mas acontece que as coisas são muito mais complexas do que pensam os amáveis comentadores.
O forcado não templa, isto é, não tempera, não suaviza, não modera a investida do touro, porque, pura e simplesmente, não tem condições para tal. Quando chega à pega, o touro já se encontra no estado de aplomado, já não há mais nada para ‘temperar’. E mesmo que houvesse, não está nas mãos do forcado controlar a acometida do touro. O forcado obedece, moldando a forma como recua ao ímpeto do touro. O que já é fazer muito, e merece o nosso aplauso.
Por tudo isto, não venham os senhores comentadores de hoje com argumentos que nem os mais ilustrados críticos taurinos do passado – um Leopoldo Nunes, um Cabral Valente, um Saraiva Lima, um Nizza da Silva – nem os mais acérrimos defensores da corrida à portuguesa se atreveram a esgrimir. Porque sabiam do que falavam, ao contrário dos de hoje.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

A última oportunidade?

Pedrito de Portugal actuará no próximo domingo em Badajoz, substituindo El Fundi, colhido recentemente. Como companheiros de cartel, as duas maiores figuras do momento: José Tomás e Miguel Ángel Perera. À primeira vista, Pedrito não tem uma tarefa fácil. Pouco placeado, como se viu na recente actuação no Campo Pequeno, o matador português pode ver-se em palpos de aranha com os touros de Jandilla. No entanto, pode beneficiar do seu estatuto de outsider. Ninguém duvida que no domingo todas as atenções estarão concentradas no duelo José Tomás/Perera. Pedrito é o terceiro homem, o que entrou no cartel à última hora, aquele a quem o público espanhol pedirá menos. Por isso, uma boa actuação do português pode surpreender, levando-o a um relançamento de carreira em que, verdade seja dita, já poucos acreditam. Sorte para domingo é o que se deseja.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

A farsa continua

João Telles Júnior será o próximo cavaleiro português a tomar a «alternativa» em Espanha, concretamente em San Sebastián, no próximo dia 9 de Agosto. Uma vez mais, será «padrinho» Pablo Hermoso de Mendoza e «testemunha» Diego Ventura. Segundo o site oficial do Campo Pequeno, e os milhares de pessoas que assistiram à cerimónia, ao vivo e pela televisão, poderão confirmar, o referido cavaleiro tomou a alternativa em Lisboa, a 4 de Setembro de 2008. Mas tal deve ter sido mais uma alucinação colectiva, pois de contrário não haveria necessidade de Telles Júnior se «doutorar» no país vizinho.
Falando a sério, o toureio equestre português não desiste de dar passos em frente... em direcção ao abismo. Estamos perante mais um estranho caso em que os «alunos» doutoram os «mestres». Todos sabemos o que os rejoneadores espanhóis devem ao toureio a cavalo português, Pablo Hermoso incluído. Como aprenderam com os nossos cavaleiros e como refinaram, com eles, modo, o basto estilo do rejoneo campero. E tanto aprenderam, que agora são eles a conceder «alternativas» a quem os ensinou.... Claro que a boa fé de Pablo Hermoso não é aqui posta em causa, pois tudo não passará de um ajuste, com objectivos comerciais, entre os apoderados do espanhol e do português.
Ficamos também a saber que Telles Júnior, ou quem o dirige, se considera, à luz do artigo 7º do Regulamento Taurino espanhol um rejoneador de novilhos, que precisa da «alternativa» dum colega mais velho para poder lidar touros... Tal é o desnorte, a falta de senso e de regras que paira no nosso «mundinho» taurino. Eis como se borra uma casaca que deveria merecer mais respeito a quem a enverga. E vêm depois falar-nos em «cavaleiros de dinastia»...

domingo, 31 de maio de 2009

O direito à indignação

O cartel da feira taurina de Badajoz não engana: a 20 de Junho, o cavaleiro português Manuel Lupi «tomará a alternativa» na praça da capital estremenha, presumivelmente das mãos de Pablo Hermoso de Mendoza, com o testemunho de Diego Ventura. Mas o jovem Lupi não é já cavaleiro de alternativa, desde o dia 8 de Maio de 2005? Ou o que se passou no Campo Pequeno, nessa noite em que o pai, José Samuel Lupi, o doutorou, foi uma alucinação colectiva?
Que embuste é este, agora, em Badajoz? Que forma tem esta «alternativa» espanhola no quadro das normas (se ainda há normas) que regem o toureio no nosso País? Quantas alternativas se podem receber? Uma, duas, três, meia dúzia? E como se presta Manuel Lupi, filho de alguém que foi grande no toureio equestre português, a participar nesta farsa? Acaso o pai, quando competia em Espanha com os Peralta e outros, necessitou de mais credenciais que não fossem o seu bom toureio? O marketing justifica tudo?
E o Sindicato dos Toureiros ou quem quer que seja que manda «nisto», não intervém? E os aficionados não se indignam? E os críticos não reagem? Ninguém se atreve a dizer ao moço que, pior que ele, é o toureiro português que fica mal na fotografia?

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O insulto e as respostas

Rafael Corbelle, apoderado do matador Israel Lancho, acusou o ganadeiro João Folque de Mendonça (Palha) de ser moruchero, ou seja, criador de touros broncos. E ainda por cima português, como não se esqueceu de lembrar aos mais distraídos, num arroubo de chauvinismo, o excelso apoderado. O próprio ganadeiro e alguns blogues responderam-lhe à letra. (Foto http://manonfotoblog.blogspot.com/)

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Para quando touros destes em Portugal?

Os touros de Palha, os tais que provocavam, e pelos vistos ainda provocam, horror, terror e furor, triunfaram um ano mais em Las Ventas. Ponto negativo do festejo, a grave colhida do matador Israel Lancho. Mas como afirmou o ganadeiro João Folque, «eu crio toiros para a afición e o touro não pode estar ao serviço do toureiro.» Os Palha são um genuíno produto português, mas não podem ser vistos na sua integridade nas nossas praças. Uma legislação abstrusa e uma afición (?) passiva e medíocre, que não é de certeza aquela para quem João Folque cria touros, não permitem que se aprecie tão belos animais por inteiro. Porque as «armas» dos touros, isto é, os cornos, são cobertas pelas vergonhosas embolas ou mutilados pelo ignominioso serrote. Por isso os nossos lidadores não sofrem cornadas, mas sim quedas, encontrões contra a trincheira, uns ossos partidos, umas nódoas negras... As fatalidades que têm ocorrido devem-se mais ao azar do que ao ataque dos touros. Até quando teremos em Portugal uma Festa de 2ª, que não nos permite, sequer, contemplar touros íntegros? (Foto: http://www.burladero.com/sanisidro2009/006467/sorteo/palha/20/san/isidro)