quinta-feira, 24 de junho de 2010

Lembranças do motorista de Manolete


O toureiro é um profissional itinerante. A sua actividade exerce-se em diferentes praças, muitas vezes separadas por longas distâncias. Como tal, para os toureiros, ter bons motoristas é tão importante como ter bons bandarilheiros. Nos milhares de quilómetros palmilhados pelas estradas, o homem do volante tem nas mãos a vida do seu maestro e acompanhantes, com os quais partilha os momentos de felicidade e de angústia.
Em 1958, a extinta revista «El Ruedo» publicou uma entrevista com o motorista do célebre Manuel Rodríguez Sánchez Manolete, de seu nome António Miguel Yedero, reproduzida pelo blog Aula Taurina de Granada.
O entrevistado confirma que Manolete era um homem taciturno e formal. «Falava muito pouco. (...) Falava-me com todo o respeito, o que me surpreendeu, porque eu tinha outra ideia dos toureiros.» Porém, Manolete também era capaz de rir a bandeiras despregadas com as graças dos seus amigos Carnicerito de Málaga e Curro de Villacusa.
Yedero começou por conduzir um Hispano-Suiza, comprado ao matador António Márquez. Depois Manolete comprou um carro mais moderno, o famoso Buick azul que a Espanha inteira conhecia. As viagens quase não lhes permitiam respirar. Após a corrida, o matador e a quadrilha tomavam uma refeição rápida e punham-se a caminho sem mais demoras. O trajecto mais longo que efectuaram foi entre Barcelona e Zafra, num total de 1120 quilómetros. Na estrada, os toureiros dormiam. Yedero era «alimentado» por Chimo, moço de espadas de Manolete, com café, conhaque e charutos...
Na temporada de 1947, a de Linares, Manolete «já não queria tourear». Mas «o seu pundonor, a sua vergüenza e a sua responsabilidade fizeram-no ceder à pressão das empresas». Após a colhida, o moço de espadas Chimo pediu a Yedero que fosse ao hotel buscar as estampas religiosas que acompanhavam Manolete. O motorista assim fez, mas já nada podia salvar o diestro da fatal cornada infligida por Islero. (Na imagem, Manolete assina autógrafos no seu Buick. Ao fundo, o apoderado Camará)

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Club Cocherito de Bilbao celebra centenário


Incluído na Semana de Cultura Tauromáquica, realiza-se em Vila Franca de Xira, no próximo dia 30 de Junho, um colóquio sobre o centenário do clube taurino Cocherito de Bilbao, que este ano se assinala. A sessão, que terá lugar no Clube Taurino Vilafranquense, celebra uma das mais activas e prestigiadas associações  taurinas do país vizinho.
Algumas palavras sobre o seu patrono, o matador de toiros Cocherito de Bilbao. Cástor Jaureguibeitia Ibarra, assim se chamava, nasceu em 20 de Dezembro de 1876, em Bilbau. Ao longo da sua carreira participou em 616 festejos, nos quais matou 1668 hastados, em arenas de Espanha, Portugal, França, México e Perú. Toureiro de fibra e de toiros duros, Cocherito matou 43 corridas de Miura, 21 de Veragua e 20 de Félix Urcola, além de Murube, Guadalest, Pablo Romero e Parladé.
A imagem que se reproduz documenta uma actuação de Cocherito (terceiro a contar da esquerda) no Campo Pequeno, em 24 de Abril de 1910. Além do espada bilbaíno tourearam nessa tarde o seu compatriota Saleri e os cavaleiros José Casimiro e Eduardo Macedo.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Conhecer melhor Jaime Ostos


O matador Jaime Ostos (Écija, 1933) foi figura destacada do toureio na década de 1960. Entrevistado na última edição da revista «Taurodelta», Jaime Ostos recorda aspectos interessantes da sua carreira, do toureio e dos toureiros do seu tempo. Destaque para um famoso brinde, frente às câmaras da televisão, feito ao taquígrafo pessoal do generalíssimo Franco...

domingo, 13 de junho de 2010

Passo a citar (XI)


«O momento da verdade, da execução da sorte suprema, faz a grande diferença. (...) A morte do toiro é o culminar de tudo o que antes com ele se faz. (...) Por muito meritória ou bela que tenha sido a faena, da estocada fulminante depende o verdadeiro e autêntico triunfo. Quem não mata não triunfa, por muito bem que antes tenha toureado. (...) Em Portugal não se matam os toiros. Daí, a subjectividade da nossa Festa.»
                              
João Queiroz («Novo Burladero», nº 259, Junho de 2010)

segunda-feira, 7 de junho de 2010

«Primeiro traje de luces de Juan Belmonte»


                                   Torerillo de Pueblo! Ai, quem diria!...
                                   Adolescente banhado de luar!...
                                   Ó gentes! El Patrón da Toreria
                                   Vestido de luces vai passar
                                   Com sedas, lantejoulas, pedrarias
                                   No bailado da morte e aventura…
                                   Zuloaga, Solana, Vázquez Díaz!
                                   Já lhe preparam telas de pintura.
                                   E Elvas – em madrinha – dá-lhe o beijo
                                   «…e os panecillos tan ricos…» e o desejo
                                   De ser D. Juan Belmonte de Triana.
                                   E foi. Correu mundo. Cá voltou.
                                   Lembrou-se da madrinha? Ai, lembrou!
                                   Repiquem campanários do Guadiana…

                                                                            Azinhal Abelho*


* Poeta nascido em Orada, concelho de Borba, em 1911, e falecido em Lisboa, em 1979. Juan Belmonte, o toureiro aqui evocado, vestiu pela primeira vez o traje de luces em Elvas, em 6 de Maio de 1909. Antes da corrida, o empresário ofereceu um repasto a Belmonte e aos demais novilheiros espanhóis que com ele actuaram. Como estavam esfomeados, atiraram-se com unhas e dentes a uns pãezinhos, os «panecillos» a que o poeta se refere. Muitos anos depois, Belmonte voltou a Elvas, mostrando não ter esquecido a «madrinha».                       

sábado, 15 de maio de 2010

A tragédia de Talavera, 90 anos depois


Na cronologia do toureio, o mês de Maio é fatal. A 12 de Maio de 1904, como vimos no post anterior, foi mortalmente colhido o cavaleiro Fernando de Oliveira; nos dias 27 de Maio de 1894 e 1897, morreram Manuel García El Espartero e Júlio Aparici Fabrilo, nas praças de Madrid e Valência; a 7 de Maio de 1922, o touro Pocapena matou Manuel Granero; a 31 de Maio de 1931, tombou Gitanillo de Triana, vítima de Fandanguero; em 24 de Maio de 1941, Pascual Márquez, em Sevilha; e a 16 de Maio de 1920, em Talavera de la Reina, aquele a quem chamaram o Rei dos Toureiros, José Gómez Ortega, Gallito ou Joselito.
Gallito nasceu em Gelves, em 8 de Maio de 1895, filho do matador Fernando Gómez e irmão do legendário Rafael El Gallo. Com 12 anos começou a lidar bezerros, denotando desde logo uma intuição e umas qualidades excepcionais.
Ao tomar a alternativa em Madrid, com uns imberbes 17 anos, é-lhe já reconhecido o estatuto de maestro, pelo saber e maturidade de que dá mostras. Apenas Juan Belmonte lhe fez frente, numa rivalidade que despertou paixões nunca vistas e deu a essa época o epíteto de Idade de Ouro do toureiro.
O genial Gallito estreou-se no Campo Pequeno em 1908, integrado numa quadrilha de jovencíssimos toureiros, os Niños Sevillanos. Já matador consagrado, voltou a Lisboa diversas vezes, nomeadamente em 5 de Outubro de 1915, a 4 de Julho e a 10 de Outubro de 1917, a 9 e a 13 de Outubro de 1919. Poucos meses decorridos, em 16 de Maio de 1920, Bailaor, da Viúva de Ortega, um touro sem classe nem trapio, ceifar-lhe-ia a vida, na modesta praça de Talavera de la Reina. Passam agora 90 anos.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Fernando de Oliveira morreu há 106 anos

Em 12 de Maio de 1904, passam hoje 106 anos, foi mortalmente colhido o cavaleiro Fernando de Oliveira, na praça do Campo Pequeno. Ferrador, um toiro da ganadaria do marquês de Castelo Melhor, atingiu o cavalo de Fernando de Oliveira, o Azeitona, derrubando-o com estrépito. O cavaleiro bateu com a cabeça no solo, fracturando a base do crânio. A morte foi quase instantânea. O jornalista Norberto de Araújo descreve assim o trágico acontecimento:
«Fernando de Oliveira, que recebera a farpa da mão do espanhol Currinche, um bandarilheiro castelhano e medíocre, passa pelo sector 1, onde os amigos, debruçados sobre as capas, azul uma, branca outra, de Manuel dos Santos e Tomás da Rocha, o aplaudem; sorri vagamente a Bombita Chico, depois o famoso Ricardo Bombita, que da trincheira, ao lado de Chicuelo, segue a jornada do cavalo; saúda com mal disfarçado respeito as Majestades que olham o redondel distraidamente – e toma à esquerda o lugar para a gaiola. O Ferrador endireitou ao vulto do capote de Teodoro e a gaiola falhou para o cavaleiro. (...)
E que lindo vai agora o Azeitona, numa meia volta que Fernando de Oliveira remata com o seu brilhantismo peculiar! Mas o toiro é tardo e difícil. Fernando já saiu em falso duas vezes... É preciso apertar. Das barreiras, dos sectores de sombra e sombra-sol incitam-no. Há um pequeno silêncio no circo. Vai outra meia volta, e adivinha-se perigosa.
O toiro está nos tércios, em frente do sector 6, sombra-sol, e Morenito, um espanhol de Bombita, atira-lhe o capote. O toiro coloca-se, ainda que apertado. Fernando dá então uma sacudidela ao cavalo, que larga, enquanto a voz possante do cavaleiro incita o bicho – que se volta a sorte. O cavaleiro, corajosamente, remata, mas remata consentindo, isto é, deixando o toiro entrar muito. Cravou o ferro. Há um frémito, agora... O toiro colhera o ginete pela anca e, na violência da pancada, o Azeitona tombou, desequilibrou-se, foi ao solo. Já grita a praça em peso, aos capotes. Correm os espanhóis, porque tudo fora num segundo, pouco mais que num segundo. O cavaleiro saíra pela cabeça do cavalo, e está agora debaixo da montada, aquela montada gentil e donairosa, esperança do cavaleiro para breve, e que o toiro carrega, numa fúria, numa violência.
Por momentos está tudo de pé, nos sectores. Os capotes são inúteis; quase é preciso puxar o bicho, que alfim deixa a presa, já quando Fernando de Oliveira, sangrando da cabeça, com as abas da casaca vermelha voltadas sobre as costas – não dava acordo de si. O cavalo, sem governo, corre desordenadamente a praça. Todos os capotes estão agora em cena. Fernando é levado para a enfermaria. Pela praça vai um frio de morte.» (Norberto de Araújo, «A Morte Trágica de Fernando de Oliveira»)