terça-feira, 4 de maio de 2010

Juan Belmonte no Campo Pequeno

Juan Belmonte (à esquerda), protagonista, juntamente com Joselito, da mais esplendorosa época do toureio, actuou diversas vezes em Lisboa. A primeira em 17 de Setembro de 1914, alternando com Manuel Mejías Bienvenida, na lide de exemplares de Infante da Câmara. Zé Jaleco, cronista d'«O Século», conta que o Pasmo de Triana «causou verdadeira admiração, pela maneira por que se arrima aos touros, dominando-os com lances arriscadíssimos. Foram soberbos os passes naturais, as verónicas e os molinetes, que executou com requintada elegância e mestria. As ovações que se fizeram ao diestro foram estrondosas e, realmente, mereceu-as.» Belmonte repetiu a 10 de Junho de 1915, ao lado de Manuel Torres Bombita III, novamente com touros  de Infante da Câmara, em corrida picada. Juan e o irmão mais novo dos Bombas «lancearam de capote, com elegância e arte, adornando-se aos quites por forma a provocar aplausos, especialmente no 7º touro, acabando por lancear al alimón, isto é, ambos com o mesmo capote, terminando por ajoelhar diante do bicho», lê-se no «Diário de Notícias».
«Com a muleta, ambos os diestros se adornaram, sendo no entanto mais luzidas as faenas de Bombita, embora as de Belmonte fossem mais artísticas.» São desta corrida as imagens que se reproduzem, extraídas da revista «Ilustração Portuguesa».
Juan Belmonte, o revolucionário do toureio, encontrava-se nesse ano de 1915 em plena rivalidade com Joselito. «Na temporada de 1915 contratei cento e quinze corridas, das quais toureei noventa», declara o diestro sevilhano na sua biografia, «Juan Belmonte Matador de Toros». «Alternei com Joselito em sessenta e oito, porque cada vez os públicos se encarniçavam mais com a competência que se obstinavam em suscitar e manter entre nós.»
É de 1915 o clamoroso triunfo do trianero na Corrida de Beneficência, em Madrid, «data gloriosa nos anais daquilo a que se chama 'o belmontismo'». Rezam as crónicas que Juan ligou, de forma assombrosa, quatro passes naturais com um passe de peito. No «ABC» do dia seguinte, lia-se: «Corrida de Beneficência! A caridade e a arte. Ao fundir-se num traje de luces tomam a figura trágica de um toureiro, e este chama-se Juan Belmonte».

domingo, 25 de abril de 2010

Mulheres na arena


Nos últimos anos, uma das grandes mudanças verificadas no ambiente taurino português foi, sem dúvida, o triunfo de mulheres no toureio a cavalo. Quem, há vinte ou trinta anos, encarava com naturalidade que num cartel, ao lado de cavaleiros e em plano de igualdade com estes, figurassem mulheres? É certo que houve o antecedente de Conchita Cíntron. Mas Conchita toureou poucos anos, e nunca deixou de enfrentar a oposição de muitos colegas do sexo masculino, que se negavam a actuar com ela unicamente por ser mulher... 
Felizmente, as mentalidades e os tempos são outros. Ana Batista e Sónia Matias, as duas cavaleiras que mais elevada cotação atingiram, cumprem na presente temporada dez anos de alternativa. Conseguiram profissionalizar-se, triunfaram e. tão importante como isso, tornaram normal o facto de outras mulheres quererem demonstrar provar o seu mérito nas arenas.
No entanto, a «batalha» não foi ganha com facilidade, como se conclui da entrevista que ambas concederam recentemente à revista «Novo Burladero». «Alguma vez sentiu vantagem, tanto no trato com os seus colegas do sexo masculino como na apreciação que o público faz de si, pelo facto de ser mulher?» Resposta de Sónia: «Nem vantagem nem desvantagem. Obviamente que há um certo público que tem tendência a acarinhar um pouco mais pelo facto de ser mulher. Relativamente aos colegas, inicialmente não foi tão fácil. Houve alguns, com quem actualmente me dou lindamente e até somos amigos e me respeitam, que se opuseram à minha entrada nos cartéis». A resposta de Ana não é tão directa, mas mostra que se no início houve reservas, elas foram ultrapassadas: «Em Portugal, quase todos os meus colegas foram sempre cavalheiros comigo, com palavras de apoio e conforto». Quanto ao público, Ana, que rodou alguns anos por Espanha com outras cavaleiras, sublinha as diferenças entre espanhóis e portugueses: «Em Espanha havia zonas em que nos arrasavam». Por cá, os espectadores reagem melhor. «Desde que o público me aceite e respeite, ainda cá vou andar muitos anos», exclama Sónia, com a certeza de que quando se retirar, não será por culpa do seu sexo.

Museus taurinos na Net


Alguns museus taurinos possuem páginas na Internet, e permitem visitas virtuais mais ou menos detalhadas. É o caso do museus de SalamancaMadrid, Valência, Sevilha, Alicante, Bilbao e Ronda. Pelo conteúdo e qualidade visual, destaca-se o site do Museu Taurino de Valência. A Sala de Exposições Permanentes conta com diversos núcleos: Tauromaquia Valenciana, Touro, Toureiro, A Lide e Praça de Touros. Nos Fundos do museu é possível apreciar os trabalhos de restauração de algumas peças. Nas Exposições, pequenos sumários dão-nos uma ideia das mostras já efectuadas no museu.

sábado, 24 de abril de 2010

terça-feira, 20 de abril de 2010

«Como unir el cielo con el capote?»

(Tela de Elísio Sumavielle, secretário de Estado da Cultura. In «Novo Burladero», nº256)

Benfica aficionado

Num momento em que o Benfica está à beira de ser campeão nacional, é oportuno recordar o contributo dos aficionados para a construção do antigo Estádio da Luz. Tal construção só foi possível através de uma gigantesca campanha de  recolha de fundos, lançada pelo presidente Joaquim Ferreira Bogalho. A campanha incluiu um festival taurino, realizado no Campo Pequeno em 26 de Outubro de 1952.
Do cartel constavam os cavaleiros João Núncio, José Rosa Rodrigues e Francisco Sepúlveda, os diestros Manuel dos Santos, António dos Santos, Joaquim Marques e Francisco Mendes, e os forcados amadores de Lisboa. À última hora, juntou-se-lhes o matador espanhol Manolo González, que se disponibilizou para lidar um dos novilhos cedidos por Cláudio Moura.
A gerência do Campo Pequeno, na pessoa de José Ricardo Domingues Júnior, filho do empresário, tudo fez «para o bom êxito da iniciativa.» Só o tempo não ajudou. «Toda a manhã de domingo choveu a bom chover, chuva miudinha que irritava e entristecia, e que pôs o chão da arena em ‘papa’.» A praça não encheu, mas mesmo assim o clube arrecadou uma receita líquida de 150 contos.
Conta o jornal «O Benfica» que «os cavalos, quer os das cortesias, quer os de combate - ostentavam grinaldas de cor vermelho-branco». Manuel Santareno, «o competente chefe de curros do Campo Pequeno, o mago da embolação, quis também homenagear o SLB, e forrou de vermelho-branco as bandarilhas empregadas na lide, sendo obra sua, também, a bandeirinha que se desfraldava nas farpas dos cavaleiros, após serem cravadas nos touros.»
O facto mais marcante da corrida foi a saída pela Porta Grande dos forcados de Lisboa, em condições muito especiais. Segundo  o antigo forcado Carlos Patrício Álvares (Chaubet), no seu livro «Pega de Caras», Manuel dos Santos terá incitado os forcados a pegarem a rês que acabara de tourear. «Estes, satisfeitos por poderem mostrar que pegavam sem dificuldade o que entre nós se toureia a pé, imediatamente acederam.» A pega foi concretizada e muito aplaudida, mas o director de corrida não esteve pelos ajustes e ordenou que o pegador fosse detido. «Evidentemente, bem à grupo de Lisboa da época –se vai um vão todos – lá saiu o grupo todo pela Porta Grande, escoltados pela polícia.» Os forcados foram libertados a tempo de poderem comparecer no jantar oferecido pelo Benfica, na Adega Mesquita. Nuno Salvação Barreto, esse, ficou sob custódia, mas enviou um telegrama aos seus rapazes: «A lei não me deixa comparecer, mas o vosso cabo está convosco. Viva o Benfica».

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Passo a citar (X)


«Não quero terminar sem dedicar algumas linhas patrióticas à nossa touradinha. Se calhar, eu é que sou embirrento, mas sempre que me lembro que o nosso Regulamento é o único no mundo que, em vez de considerar uma fraude a manipulação dos cornos, a manda expressamente executar, sinto-me invadido por aquela apagada e vil tristeza em que o português mergulha com tanta frequência.»

(Fernando Teixeira, «O Touro e o Destino»)