terça-feira, 20 de abril de 2010
Benfica aficionado
Num momento em que o Benfica está à beira de ser campeão nacional, é oportuno recordar o contributo dos aficionados para a construção do antigo Estádio da Luz. Tal construção só foi possível através de uma gigantesca campanha de recolha de fundos, lançada pelo presidente Joaquim Ferreira Bogalho. A campanha incluiu um festival taurino, realizado no Campo Pequeno em 26 de Outubro de 1952.
Do cartel constavam os cavaleiros João Núncio, José Rosa Rodrigues e Francisco Sepúlveda, os diestros Manuel dos Santos, António dos Santos, Joaquim Marques e Francisco Mendes, e os forcados amadores de Lisboa. À última hora, juntou-se-lhes o matador espanhol Manolo González, que se disponibilizou para lidar um dos novilhos cedidos por Cláudio Moura.
A gerência do Campo Pequeno, na pessoa de José Ricardo Domingues Júnior, filho do empresário, tudo fez «para o bom êxito da iniciativa.» Só o tempo não ajudou. «Toda a manhã de domingo choveu a bom chover, chuva miudinha que irritava e entristecia, e que pôs o chão da arena em ‘papa’.» A praça não encheu, mas mesmo assim o clube arrecadou uma receita líquida de 150 contos.
Conta o jornal «O Benfica» que «os cavalos, quer os das cortesias, quer os de combate - ostentavam grinaldas de cor vermelho-branco». Manuel Santareno, «o competente chefe de curros do Campo Pequeno, o mago da embolação, quis também homenagear o SLB, e forrou de vermelho-branco as bandarilhas empregadas na lide, sendo obra sua, também, a bandeirinha que se desfraldava nas farpas dos cavaleiros, após serem cravadas nos touros.»
O facto mais marcante da corrida foi a saída pela Porta Grande dos forcados de Lisboa, em condições muito especiais. Segundo o antigo forcado Carlos Patrício Álvares (Chaubet), no seu livro «Pega de Caras», Manuel dos Santos terá incitado os forcados a pegarem a rês que acabara de tourear. «Estes, satisfeitos por poderem mostrar que pegavam sem dificuldade o que entre nós se toureia a pé, imediatamente acederam.» A pega foi concretizada e muito aplaudida, mas o director de corrida não esteve pelos ajustes e ordenou que o pegador fosse detido. «Evidentemente, bem à grupo de Lisboa da época –se vai um vão todos – lá saiu o grupo todo pela Porta Grande, escoltados pela polícia.» Os forcados foram libertados a tempo de poderem comparecer no jantar oferecido pelo Benfica, na Adega Mesquita. Nuno Salvação Barreto, esse, ficou sob custódia, mas enviou um telegrama aos seus rapazes: «A lei não me deixa comparecer, mas o vosso cabo está convosco. Viva o Benfica».
Do cartel constavam os cavaleiros João Núncio, José Rosa Rodrigues e Francisco Sepúlveda, os diestros Manuel dos Santos, António dos Santos, Joaquim Marques e Francisco Mendes, e os forcados amadores de Lisboa. À última hora, juntou-se-lhes o matador espanhol Manolo González, que se disponibilizou para lidar um dos novilhos cedidos por Cláudio Moura.
A gerência do Campo Pequeno, na pessoa de José Ricardo Domingues Júnior, filho do empresário, tudo fez «para o bom êxito da iniciativa.» Só o tempo não ajudou. «Toda a manhã de domingo choveu a bom chover, chuva miudinha que irritava e entristecia, e que pôs o chão da arena em ‘papa’.» A praça não encheu, mas mesmo assim o clube arrecadou uma receita líquida de 150 contos.
Conta o jornal «O Benfica» que «os cavalos, quer os das cortesias, quer os de combate - ostentavam grinaldas de cor vermelho-branco». Manuel Santareno, «o competente chefe de curros do Campo Pequeno, o mago da embolação, quis também homenagear o SLB, e forrou de vermelho-branco as bandarilhas empregadas na lide, sendo obra sua, também, a bandeirinha que se desfraldava nas farpas dos cavaleiros, após serem cravadas nos touros.»
O facto mais marcante da corrida foi a saída pela Porta Grande dos forcados de Lisboa, em condições muito especiais. Segundo o antigo forcado Carlos Patrício Álvares (Chaubet), no seu livro «Pega de Caras», Manuel dos Santos terá incitado os forcados a pegarem a rês que acabara de tourear. «Estes, satisfeitos por poderem mostrar que pegavam sem dificuldade o que entre nós se toureia a pé, imediatamente acederam.» A pega foi concretizada e muito aplaudida, mas o director de corrida não esteve pelos ajustes e ordenou que o pegador fosse detido. «Evidentemente, bem à grupo de Lisboa da época –se vai um vão todos – lá saiu o grupo todo pela Porta Grande, escoltados pela polícia.» Os forcados foram libertados a tempo de poderem comparecer no jantar oferecido pelo Benfica, na Adega Mesquita. Nuno Salvação Barreto, esse, ficou sob custódia, mas enviou um telegrama aos seus rapazes: «A lei não me deixa comparecer, mas o vosso cabo está convosco. Viva o Benfica».
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Passo a citar (X)
«Não quero terminar sem dedicar algumas linhas patrióticas à nossa touradinha. Se calhar, eu é que sou embirrento, mas sempre que me lembro que o nosso Regulamento é o único no mundo que, em vez de considerar uma fraude a manipulação dos cornos, a manda expressamente executar, sinto-me invadido por aquela apagada e vil tristeza em que o português mergulha com tanta frequência.»
(Fernando Teixeira, «O Touro e o Destino»)
sábado, 17 de abril de 2010
Touros a Norte: no Porto
A grande maioria dos espectáculos taurinos em Portugal concentra-se, hoje, a sul da linha do Tejo. Porém, tempos houve em que as corridas de touros foram muito populares no Norte do país, como atesta o investigador matosinhense Horácio Marçal, na sua brochura «Touradas, Toureiros e Tauródromos no Porto, Gaia e em Matosinhos» (1971).
No Porto, a tradição remontará a 24 de Junho de 1785, quando ali foi realizada uma tourada incluída, muito possivelmente, nos festejos do casamento do futuro D. João VI com D. Carlota Joaquina. Segundo Horácio Marçal, o acontecimento teve lugar «em praça especialmente construída para o efeito, no lugar da Torrinha, à estrada de Cedofeita.» Oito anos depois, em 2 de Junho de 1793, efectua-se outro espectáculo «em redondel também propositadamente erguido no então Campo de Santo Ovídio (actual Praça da República)», para comemorar o nascimento da infanta Maria Teresa. «A aludida praça de touros, rematada por uma série de balaústres e pirâmides, com portas em arco de meia volta ladeadas por colunas dóricas encimadas pelas armas da cidade, era de formato octogonal e de agradável concepção.»
Outros tauródromos terão existido no Porto setecentista. Contudo, de fonte segura, só em 1869 e 1870 há notícia da construção de novas praças: em Cadouços, Foz do Douro, por iniciativa «do popular e conhecido alquilador Raimundo dos Santos Natividade»; num terreno na Avenida da Boavista, obra do empreiteiro José Moreira de Matos, e ainda «no Largo da Aguardente (actual Praça Marquês de Pombal)». Nestes recintos actuaram cavaleiros de nomeada, como Francisco Carlos Batalha e Manuel Mourisca Júnior, e os melhores bandarilheiros portugueses.
No entanto, os melhores redondéis do Porto foram o Coliseu Portuense (em cima) e a praça da Rua da Alegria. O primeiro foi edificado em 1889, quando «o proprietário da Ourivesaria Viseense, na Rua de Santo António, Lopes Pereira, e o seu amigo e associado Joaquim Vieira de Magalhães, dois grandes aficionados da Festa Brava, resolveram constituir uma sociedade - Empresa Coelho Pereira & Magalhães - para a construção e exploração duma nova praça de touros». Projectada pelo engenheiro Estêvão Torres, foi inaugurada em 28 de Julho de 1889. «Era toda de cantaria, muito elegante, reunindo na sua construção tudo quanto havia de mais moderno», salienta Horácio Marçal.
Pela arena do Coliseu passaram os grandes cavaleiros, amadores e profissionais, da época: o marquês de Castelo Melhor, os viscondes de Alverca e da Várzea, D. Luís do Rego, Fernando de Oliveira, Alfredo Tinoco e Manuel Casimiro. A pé, matadores espanhóis da categoria de Guerrita, Espartero e Cara Ancha. Só os resultados financeiros não eram positivos, e por isso o Coliseu foi demolido em 1898. Seguiu-se-lhe a praça da Rua da Alegria (em baixo). Inaugurada em 4 de Maio de 1902, era «de madeira, ao gosto árabe, com uma lotação para 7000 pessoas». Nela se exibiram cavaleiros como José Casimiro o Morgado de Covas, José
Bento de Araújo e outros. Entre os diestros espanhóis que nela compareceram destacam-se António Fuentes, Lagartijo, os irmãos Bombita, Machaquito, Manuel Mejías Bienvenida e Joselito, na quadrilha dos Niños Sevilllanos. Em 1920 a praça da Rua da Alegria já não existia, pois nesse ano forma-se a Sociedade Tauromáquica Portuense, com o fim de construir «uma nova e grande praça de touros na Areosa». O tauródromo, sito num terreno de 6500 metros quadrados, foi palco de corridas, mas também de outros espectáculos, como combates de boxe. Ardeu em 1926, num «incêndio inexplicável», que «em quarenta e cinco minutos apenas, reduziu-a a cinzas.» Foi esta, de acordo com Horácio Marçal, a última praça de touros do Porto.
No Porto, a tradição remontará a 24 de Junho de 1785, quando ali foi realizada uma tourada incluída, muito possivelmente, nos festejos do casamento do futuro D. João VI com D. Carlota Joaquina. Segundo Horácio Marçal, o acontecimento teve lugar «em praça especialmente construída para o efeito, no lugar da Torrinha, à estrada de Cedofeita.» Oito anos depois, em 2 de Junho de 1793, efectua-se outro espectáculo «em redondel também propositadamente erguido no então Campo de Santo Ovídio (actual Praça da República)», para comemorar o nascimento da infanta Maria Teresa. «A aludida praça de touros, rematada por uma série de balaústres e pirâmides, com portas em arco de meia volta ladeadas por colunas dóricas encimadas pelas armas da cidade, era de formato octogonal e de agradável concepção.»
Outros tauródromos terão existido no Porto setecentista. Contudo, de fonte segura, só em 1869 e 1870 há notícia da construção de novas praças: em Cadouços, Foz do Douro, por iniciativa «do popular e conhecido alquilador Raimundo dos Santos Natividade»; num terreno na Avenida da Boavista, obra do empreiteiro José Moreira de Matos, e ainda «no Largo da Aguardente (actual Praça Marquês de Pombal)». Nestes recintos actuaram cavaleiros de nomeada, como Francisco Carlos Batalha e Manuel Mourisca Júnior, e os melhores bandarilheiros portugueses.
No entanto, os melhores redondéis do Porto foram o Coliseu Portuense (em cima) e a praça da Rua da Alegria. O primeiro foi edificado em 1889, quando «o proprietário da Ourivesaria Viseense, na Rua de Santo António, Lopes Pereira, e o seu amigo e associado Joaquim Vieira de Magalhães, dois grandes aficionados da Festa Brava, resolveram constituir uma sociedade - Empresa Coelho Pereira & Magalhães - para a construção e exploração duma nova praça de touros». Projectada pelo engenheiro Estêvão Torres, foi inaugurada em 28 de Julho de 1889. «Era toda de cantaria, muito elegante, reunindo na sua construção tudo quanto havia de mais moderno», salienta Horácio Marçal.
Pela arena do Coliseu passaram os grandes cavaleiros, amadores e profissionais, da época: o marquês de Castelo Melhor, os viscondes de Alverca e da Várzea, D. Luís do Rego, Fernando de Oliveira, Alfredo Tinoco e Manuel Casimiro. A pé, matadores espanhóis da categoria de Guerrita, Espartero e Cara Ancha. Só os resultados financeiros não eram positivos, e por isso o Coliseu foi demolido em 1898. Seguiu-se-lhe a praça da Rua da Alegria (em baixo). Inaugurada em 4 de Maio de 1902, era «de madeira, ao gosto árabe, com uma lotação para 7000 pessoas». Nela se exibiram cavaleiros como José Casimiro o Morgado de Covas, José
Bento de Araújo e outros. Entre os diestros espanhóis que nela compareceram destacam-se António Fuentes, Lagartijo, os irmãos Bombita, Machaquito, Manuel Mejías Bienvenida e Joselito, na quadrilha dos Niños Sevilllanos. Em 1920 a praça da Rua da Alegria já não existia, pois nesse ano forma-se a Sociedade Tauromáquica Portuense, com o fim de construir «uma nova e grande praça de touros na Areosa». O tauródromo, sito num terreno de 6500 metros quadrados, foi palco de corridas, mas também de outros espectáculos, como combates de boxe. Ardeu em 1926, num «incêndio inexplicável», que «em quarenta e cinco minutos apenas, reduziu-a a cinzas.» Foi esta, de acordo com Horácio Marçal, a última praça de touros do Porto.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
A promessa de Mazzantini
Em Março de 1909, o matador espanhol retirado Luís Mazzantini foi surpreendido na legação de Espanha em Lisboa, por um repórter da «Ilustração Portuguesa». «Estaria feito diplomata?», questinou-se o jornalista. «Não, a sua missão era de carácter particular. Mazzantini viera a Lisboa expressamente entregar a S.M. El-Rei o estoque com que em Guatemala matou o seu último touro e que havia destinado a El-Rei D. Carlos.» Como este fôra assassinado um ano antes, no Terreiro do Paço, a espada, com uma «dedicatória a ouro«, foi recebida por seu filho, D. Manuel II. Mazzantini (1856-1926) tinha razões para estar grato a D. Carlos. Recebera do rei «várias provas de estima e entre elas a comenda da Conceição, com que agora se apresentou no paço, e que ele muito aprecia». Orgulhava-se também do carinho do povo português, «cujos aplausos apreciou sempre duplamente, visto que não pôde mostrar-lhe o seu melhor trabalho - a morte do touro - no que era exímio.» Num passeio pela baixa de Lisboa, o repórter comprovou a popularidade do toureiro. Em qualquer lado «encontrava um
conhecido; em S. Carlos conhecia todos os artistas com quem falava no mais correcto italiano. O que não era de estranhar, pois
Mazzantini, embora nascido em Elgóibar, no País Basco, era
filho de pai italiano e passou parte da infância e adolescência em Itália. Como nota o jornalista, D. Luís, como era respeitosamente tratado, tornou-se matador porque «se convenceu de que naquele tempo, em Espanha, apenas se podia ser duas coisas: cantor ou toureiro. Não tendo voz, escolheu a segunda.»
El Señorito Loco, como também lhe chamavam, sabia ler, ao contrário de muitos dos seus colegas de profissão, tocava piano, vestia elegantemente e frequentava o teatro e a ópera. Não foi um toureiro de época - distinguiu-se mais como um estoqueador valoroso -, mas ficou na história por ter implantado o sorteio dos touros, contra o todo-poderoso Guerrita, que procurava reservar para si os melhores exemplares.
A «Ilustração Portuguesa» recorda que Luís Mazzantini se estreou em Lisboa em 1885, ainda na praça do Campo de Santana. Com grande êxito, «toureou grátis numa corrida de beneficência promovida pela Srª Duquesa de Palmela e patrocinada por S.M. a Rainha Senhora D. Maria Pia.» Outras actuações se sucederam, nomeadamente nas corridas que inauguraram a praça do Campo Pequeno, em 1892. Depois de retirado, Mazzantini dedicou-se à política, tendo sido governador civil de Ávila e Guadalajara e exercido cargos importantes no ayuntamiento de Madrid. (Imagens: «Ilustração Portuguesa», 29 de Março de 1909)
conhecido; em S. Carlos conhecia todos os artistas com quem falava no mais correcto italiano. O que não era de estranhar, pois Mazzantini, embora nascido em Elgóibar, no País Basco, era
filho de pai italiano e passou parte da infância e adolescência em Itália. Como nota o jornalista, D. Luís, como era respeitosamente tratado, tornou-se matador porque «se convenceu de que naquele tempo, em Espanha, apenas se podia ser duas coisas: cantor ou toureiro. Não tendo voz, escolheu a segunda.»
El Señorito Loco, como também lhe chamavam, sabia ler, ao contrário de muitos dos seus colegas de profissão, tocava piano, vestia elegantemente e frequentava o teatro e a ópera. Não foi um toureiro de época - distinguiu-se mais como um estoqueador valoroso -, mas ficou na história por ter implantado o sorteio dos touros, contra o todo-poderoso Guerrita, que procurava reservar para si os melhores exemplares.

A «Ilustração Portuguesa» recorda que Luís Mazzantini se estreou em Lisboa em 1885, ainda na praça do Campo de Santana. Com grande êxito, «toureou grátis numa corrida de beneficência promovida pela Srª Duquesa de Palmela e patrocinada por S.M. a Rainha Senhora D. Maria Pia.» Outras actuações se sucederam, nomeadamente nas corridas que inauguraram a praça do Campo Pequeno, em 1892. Depois de retirado, Mazzantini dedicou-se à política, tendo sido governador civil de Ávila e Guadalajara e exercido cargos importantes no ayuntamiento de Madrid. (Imagens: «Ilustração Portuguesa», 29 de Março de 1909)
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Morante de la Puebla: evolução às origens do toureio sevilhano
As atenções do mundo taurino convergem nestes dias para a Feira de Sevilha. Cidade taurina como nenhuma outra, dona de uma praça de beleza ímpar, Sevilha foi berço de extraordinários diestros e, mais do que isso, de um estilo: o toureio sevilhano. Toureio de harmonia e graça, de arte e naturalidade, praticado por espadas como Chicuelo, Pepe Luís Vazquez, Manolo González, Pepín Martín Vazquez e Curro Romero. A retirada deste último, em 2000, poderia ter deixado o toureio sevilhano sem intérpretes de realce - não fosse existir um diestro chamado José António Morante Camacho, mais conhecido como Morante de la Puebla. Para muitos aficionados e analistas da festa, Morante personifica a garantia da sobrevivência de um dos veios mais puros do toureio. É o caso do cronista Álvaro Acevedo, que no nº 3 da revista «Cuadernos de Tauromaquia» (Março de 2009) dedicou um extenso artigo ao matador de Puebla del Rio, a que deu o título «Evolução às origens».
Na opinião de Acevedo, a naturalidade é a característica mais marcante do toureio de Sevilha. «Não há constrangimento nem rigidez, a cintura não se quebra, não há toques firmes, nem o braço se estira para conduzir a investida. A necessidade do mando soluciona-se com a ponta dos dedos, os pulsos e a cintura, sem necessidade de estirar o braço. Tudo é flexibilidade, harmonia e suavidade.»
Numa dada fase da sua carreira, reconhece Acevedo, Morante não era «sevilhano» no que respeitava ao toureio fundamental (passes naturais, pela esquerda ou pela direita, passes de peito). A sua «sevilhania» era visível essencialmente nos detalhes, num kikiriki, num câmbio de mão, numa chicuelina. Hoje em dia, porém, Morante também pratica o estilo de Sevilha no toureio fundamental. Das suas mãos brota «um toureio de naturalidade absoluta, a cintura flexível e a figura erguida», numa forma «de entender a lide baseada no ritmo e em algo quiçá intangível a que chamamos 'graça'». Com o capote desenha verónicas de inexcedível profundidade. Com a muleta mete-se nos costados do touro, quando a necessidade de domínio o justifica, gira em molinetes «abelmontados» e rubrica passes de peito em que a flanela varre o lombo do touro, que desemboca no ombro contrário do toureiro. E tudo isto andando na cara do touro com a cadência e a graciosidade de quem acredita que o acto de um toureiro estar parado «oculta muitos defeitos».
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