sábado, 17 de abril de 2010

Touros a Norte: no Porto

A grande maioria dos espectáculos taurinos em Portugal concentra-se, hoje, a sul da linha do Tejo. Porém, tempos houve em que as corridas de touros foram muito populares no Norte do país, como atesta o investigador matosinhense Horácio Marçal, na sua brochura «Touradas, Toureiros e Tauródromos no Porto, Gaia e em Matosinhos» (1971).
No Porto, a tradição remontará a 24 de Junho de 1785, quando ali foi realizada uma tourada incluída, muito possivelmente, nos festejos do casamento do futuro D. João VI com D. Carlota Joaquina. Segundo Horácio Marçal, o acontecimento teve lugar «em praça especialmente construída para o efeito, no lugar da Torrinha, à estrada de Cedofeita.» Oito anos depois, em 2 de Junho de 1793, efectua-se outro espectáculo «em redondel também propositadamente erguido no então Campo de Santo Ovídio (actual Praça da República)», para comemorar o nascimento da infanta Maria Teresa. «A aludida praça de touros, rematada por uma série de balaústres e pirâmides, com portas em arco de meia volta ladeadas por colunas dóricas encimadas pelas armas da cidade, era de formato octogonal e de agradável concepção.»
Outros tauródromos terão existido no Porto setecentista. Contudo, de fonte segura, só em 1869 e 1870 há notícia da construção de novas praças: em Cadouços, Foz do Douro, por iniciativa «do popular e conhecido alquilador Raimundo dos Santos Natividade»; num terreno na Avenida da Boavista, obra do empreiteiro José Moreira de Matos, e ainda «no Largo da Aguardente (actual Praça Marquês de Pombal)». Nestes recintos actuaram cavaleiros de nomeada, como Francisco Carlos Batalha e Manuel Mourisca Júnior, e os melhores bandarilheiros portugueses.
No entanto, os melhores redondéis do Porto foram o Coliseu Portuense (em cima) e a praça da Rua da Alegria. O primeiro foi edificado em 1889, quando «o proprietário da Ourivesaria Viseense, na Rua de Santo António, Lopes Pereira, e o seu amigo e associado Joaquim Vieira de Magalhães, dois grandes aficionados da Festa Brava, resolveram constituir uma sociedade - Empresa Coelho Pereira & Magalhães - para a construção e exploração duma nova praça de touros». Projectada pelo engenheiro Estêvão Torres, foi inaugurada em 28 de Julho de 1889. «Era toda de cantaria, muito elegante, reunindo na sua construção tudo quanto havia de mais moderno», salienta Horácio Marçal.
Pela arena do Coliseu passaram os grandes cavaleiros, amadores e profissionais, da época: o marquês de Castelo Melhor, os viscondes de Alverca e da Várzea, D. Luís do Rego, Fernando de Oliveira, Alfredo Tinoco e Manuel Casimiro. A pé, matadores espanhóis da categoria de Guerrita, Espartero e Cara Ancha. Só os resultados financeiros não eram positivos, e por isso o Coliseu foi demolido em 1898. Seguiu-se-lhe a praça da Rua da Alegria (em baixo). Inaugurada em 4 de Maio de 1902, era «de madeira, ao gosto árabe, com uma lotação para 7000 pessoas». Nela se exibiram cavaleiros como José Casimiro o Morgado de Covas, José Bento de Araújo e outros. Entre os diestros espanhóis que nela compareceram destacam-se António Fuentes, Lagartijo, os irmãos Bombita, Machaquito, Manuel Mejías Bienvenida e Joselito, na quadrilha dos Niños Sevilllanos.  Em 1920 a praça da Rua da Alegria já não existia, pois nesse ano forma-se a Sociedade Tauromáquica Portuense, com o fim de construir «uma nova e grande praça de touros na Areosa». O tauródromo, sito num terreno de 6500 metros quadrados, foi palco de corridas, mas também de outros espectáculos, como combates de boxe. Ardeu em 1926, num «incêndio inexplicável», que «em quarenta e cinco minutos apenas, reduziu-a a cinzas.» Foi esta, de acordo com Horácio Marçal, a última praça de touros do Porto.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A promessa de Mazzantini

Em Março de 1909, o matador espanhol retirado Luís Mazzantini foi surpreendido na legação de Espanha em Lisboa, por um repórter da «Ilustração Portuguesa». «Estaria feito diplomata?», questinou-se o jornalista. «Não, a sua missão era de carácter particular. Mazzantini viera a Lisboa expressamente entregar a S.M. El-Rei o estoque com que em Guatemala matou o seu último touro e que havia destinado a El-Rei D. Carlos.» Como este fôra assassinado um ano antes, no Terreiro do Paço, a espada, com uma «dedicatória a ouro«, foi recebida por seu filho, D. Manuel II. Mazzantini (1856-1926) tinha razões para estar grato a D. Carlos. Recebera do rei «várias provas de estima e entre elas a comenda da Conceição, com que agora se apresentou no paço, e que ele muito aprecia». Orgulhava-se  também do carinho do povo português, «cujos aplausos apreciou sempre duplamente, visto que não pôde mostrar-lhe o seu melhor trabalho - a morte do touro - no que era exímio.» Num passeio pela baixa de Lisboa, o repórter comprovou a popularidade do toureiro. Em qualquer lado «encontrava um conhecido; em S. Carlos conhecia todos os artistas com quem falava no mais correcto italiano. O que não era de estranhar, pois
Mazzantini, embora nascido em Elgóibar, no País Basco, era
filho de pai italiano e passou parte da infância e adolescência em Itália. Como nota o jornalista, D. Luís, como era respeitosamente tratado, tornou-se matador porque «se convenceu de que naquele tempo, em Espanha, apenas se podia ser duas coisas: cantor ou toureiro. Não tendo voz, escolheu a segunda.»
El Señorito Loco, como também lhe chamavam, sabia ler, ao contrário de muitos dos seus colegas de profissão, tocava piano, vestia elegantemente e frequentava o teatro e a ópera. Não foi um toureiro de época - distinguiu-se mais como um estoqueador valoroso -, mas ficou na história por ter implantado o sorteio dos touros, contra o todo-poderoso Guerrita, que procurava reservar para si os melhores exemplares.
A «Ilustração Portuguesa» recorda que Luís Mazzantini se estreou em Lisboa em 1885, ainda na praça do Campo de Santana. Com grande êxito, «toureou grátis numa corrida de beneficência promovida pela Srª Duquesa de Palmela e patrocinada por S.M. a Rainha Senhora D. Maria Pia.» Outras actuações se sucederam, nomeadamente nas corridas que inauguraram a praça do Campo Pequeno, em 1892. Depois de retirado, Mazzantini dedicou-se à política, tendo sido governador civil de Ávila e Guadalajara e exercido cargos importantes no ayuntamiento de Madrid. (Imagens: «Ilustração Portuguesa», 29 de Março de 1909)

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Morante de la Puebla: evolução às origens do toureio sevilhano



As atenções do mundo taurino convergem nestes dias para a Feira de Sevilha. Cidade taurina como nenhuma outra, dona de uma praça de beleza ímpar, Sevilha foi berço de extraordinários diestros e, mais do que isso, de um estilo: o toureio sevilhano. Toureio de harmonia e graça, de arte e naturalidade, praticado por espadas como Chicuelo, Pepe Luís Vazquez, Manolo González, Pepín Martín Vazquez e Curro Romero. A retirada deste último, em 2000, poderia ter deixado o toureio sevilhano sem intérpretes de realce - não fosse existir um diestro chamado José António Morante Camacho, mais conhecido como Morante de la Puebla. Para muitos aficionados e analistas da festa, Morante personifica a garantia da sobrevivência de um dos veios mais puros do toureio. É o caso do cronista Álvaro Acevedo, que no nº 3 da revista «Cuadernos de Tauromaquia» (Março de 2009) dedicou um extenso artigo ao matador de Puebla del Rio, a que deu o título «Evolução às origens».
Na opinião de Acevedo, a naturalidade é a característica mais marcante do toureio de Sevilha. «Não há constrangimento nem rigidez, a cintura não se quebra, não há toques firmes, nem o braço se estira para conduzir a investida. A necessidade do mando soluciona-se com a ponta dos dedos, os pulsos e a cintura, sem necessidade de estirar o braço. Tudo é flexibilidade, harmonia e suavidade.»
Numa dada fase da sua carreira, reconhece Acevedo, Morante não era «sevilhano» no que respeitava ao toureio fundamental (passes naturais, pela esquerda ou pela direita, passes de peito). A sua «sevilhania» era visível essencialmente nos detalhes, num kikiriki, num câmbio de mão, numa chicuelina. Hoje em dia, porém, Morante também pratica o estilo de Sevilha no toureio fundamental. Das suas mãos brota «um toureio de naturalidade absoluta, a cintura flexível e a figura erguida», numa forma «de entender a lide baseada no ritmo e em algo quiçá intangível a que chamamos 'graça'». Com o capote desenha verónicas de inexcedível profundidade. Com a muleta mete-se nos costados do touro, quando a necessidade de domínio o justifica, gira em molinetes «abelmontados» e rubrica passes de peito em que a flanela varre o lombo do touro, que desemboca no ombro contrário do toureiro. E tudo isto andando na cara do touro com a cadência e a graciosidade de quem acredita que o acto de um toureiro estar parado «oculta muitos defeitos».

O «clássico» e o «moderno»?

Anuncia-se para 1 de Maio, em Beja, um mano-a-mano entre o cavaleiro António Ribeiro Telles e o rejoneador Diego Ventura. Em grandes parangonas, o cartel apresenta António Telles como «O Clássico» e Ventura como «O Moderno». Por mim, chamo a essa qualificação publicidade enganosa e mais uma prova da desinformação que grassa no actual meio taurino português. Para começar, quem fez o cartel não percebe, ou não quer perceber, que toureio equestre à portuguesa e rejoneo, ou rejoneio, são coisas distintas e incomparáveis. Por mais aproximações que os rejoneadores espanhóis façam ao nosso toureio a cavalo, as duas escolas são diferentes, e, digo eu, assim devem continuar, a bem da diversidade da festa de touros. E como as realidades não são as mesmas, não se pode chamar a Telles «clássico», se se chama a Ventura «moderno». O cavaleiro da Torrinha é um «clássico« no universo do toureio a cavalo à portuguesa.  Nesse mesmo universo, há outros cavaleiros menos «clássicos», ou mais «modernos», sem deixarem de tourear à portuguesa.
Recuando alguns anos, João Núncio era «clássico» em relação, por exemplo, a Mestre Baptista, que praticava um toureio mais espectacular e «moderno», mas sem abdicar das regras da chamada arte de Marialva. Em resumo: não pode transmitir-se a ideia falsa que a modernidade do toureio equestre, e ainda menos do toureio equestre à portuguesa, são as cabriolas de Ventura. O cavaleiro de Puebla del Rio será «moderno» no contexto do rejoneio; mas não o é à luz do nosso toureio a cavalo, porque as regras dum e doutro não se confundem.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Cartéis com arte (III)

Praças de touros de Lisboa (IV)

A praça do Campo Pequeno foi inaugurada em 18 de Agosto de 1892, com um cartel formado pelos cavaleiros Alfredo Tinoco e Fernando de Oliveira e pelos bandarilheiros Vicente Roberto, Roberto da Fonseca, José Joaquim Peixinho, João do Rio Sancho e outros. Foi lidado um curro de Emílio Infante da Câmara. A necessidade da construção dum novo tauródromo em Lisboa foi sentida após a demolição da praça do Campo de Santana, em 1889, não apenas pelos aficionados, mas também pelos bandarilheiros que viviam do seu ofício. Com José Joaquim Peixinho à cabeça, os bandarilheiros mobilizam-se. Dirigem-se à entidade que tinha o exclusivo da organização de espectáculos tauromáquicos em Lisboa, a Casa Pia, e conseguem que esta abra um concurso para a construção de uma nova praça, que foi ganho pela Empresa Tauromáquica Lisbonense. Com base num projecto do arquitecto António Dias da Silva, foi erguido um edifício de estilo neo-árabe, inspirado na antiga praça madrilena da Carretera de Aragón.
Os trabalhos, a cargo do engenheiro E. Boussard, iniciaram-se em 16 de Agosto de 1891 e duraram dois anos. O imóvel custou 161.200 réis, ocupava uma área de 5840 metros quadrados e possuía uma arena de 80 metros de diâmetro. Ao que parece, o reduzido diâmetro do redondel «não se subordinou às necessidades efectivas do espectáculo, mas sim ao máximo possível para um popular toureiro, que, sofrendo do coração, não podia sujeitar-se a longas correrias.» (Jaime Duarte de Almeida, «História da Tauromaquia», I volume). Ao longo de 108 anos, a praça do Campo Pequeno foi a primeira do país e a única praça portuguesa de temporada. Por ela passaram os maiores nomes do toureio a pé e a cavalo, da Península Ibérica e América Latina.
 Em 2000, o imóvel foi encerrado, devido a graves deficiências de conservação. Manteve-se assim até 2006, ano em que foi reinaugurado, depois de grandes obras realizadas pela Sociedade de Recuperação Urbana Campo Pequeno (SRUCP). O aspecto exterior da praça, com destaque para as suas típicas fachadas de tijolo, foi mantido. No interior, o recinto foi inteiramente renovado, nomeadamente com a instalação de uma cobertura amovível, que permite a realização de espectáculos durante todo o ano. Este esforço de reabilitação foi reconhecido dentro e fora do país. Em Portugal, o Campo Pequeno foi premiado com o Óscar ao Melhor Empreendimento do Ano, atribuído pela revista «Imobiliária». Por sua vez, a revista espanhola «6 Toros 6» concedeu à SRUCP o prémio à melhor instituição tauromáquica de 2006.

Glória que mata

Os touros dão fama e fortuna, mas também matam. É o que distingue o toureio de espectáculos como o teatro, por exemplo: na arena morre-se a sério. A crónica de sangue da Festa pode agora ser consultada em Los toros dan y quitan, um site que enumera as centenas de vítimas mortais da tauromaquia, desde diestros de renome a simples curiosos.