quarta-feira, 14 de abril de 2010

O «clássico» e o «moderno»?

Anuncia-se para 1 de Maio, em Beja, um mano-a-mano entre o cavaleiro António Ribeiro Telles e o rejoneador Diego Ventura. Em grandes parangonas, o cartel apresenta António Telles como «O Clássico» e Ventura como «O Moderno». Por mim, chamo a essa qualificação publicidade enganosa e mais uma prova da desinformação que grassa no actual meio taurino português. Para começar, quem fez o cartel não percebe, ou não quer perceber, que toureio equestre à portuguesa e rejoneo, ou rejoneio, são coisas distintas e incomparáveis. Por mais aproximações que os rejoneadores espanhóis façam ao nosso toureio a cavalo, as duas escolas são diferentes, e, digo eu, assim devem continuar, a bem da diversidade da festa de touros. E como as realidades não são as mesmas, não se pode chamar a Telles «clássico», se se chama a Ventura «moderno». O cavaleiro da Torrinha é um «clássico« no universo do toureio a cavalo à portuguesa.  Nesse mesmo universo, há outros cavaleiros menos «clássicos», ou mais «modernos», sem deixarem de tourear à portuguesa.
Recuando alguns anos, João Núncio era «clássico» em relação, por exemplo, a Mestre Baptista, que praticava um toureio mais espectacular e «moderno», mas sem abdicar das regras da chamada arte de Marialva. Em resumo: não pode transmitir-se a ideia falsa que a modernidade do toureio equestre, e ainda menos do toureio equestre à portuguesa, são as cabriolas de Ventura. O cavaleiro de Puebla del Rio será «moderno» no contexto do rejoneio; mas não o é à luz do nosso toureio a cavalo, porque as regras dum e doutro não se confundem.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Cartéis com arte (III)

Praças de touros de Lisboa (IV)

A praça do Campo Pequeno foi inaugurada em 18 de Agosto de 1892, com um cartel formado pelos cavaleiros Alfredo Tinoco e Fernando de Oliveira e pelos bandarilheiros Vicente Roberto, Roberto da Fonseca, José Joaquim Peixinho, João do Rio Sancho e outros. Foi lidado um curro de Emílio Infante da Câmara. A necessidade da construção dum novo tauródromo em Lisboa foi sentida após a demolição da praça do Campo de Santana, em 1889, não apenas pelos aficionados, mas também pelos bandarilheiros que viviam do seu ofício. Com José Joaquim Peixinho à cabeça, os bandarilheiros mobilizam-se. Dirigem-se à entidade que tinha o exclusivo da organização de espectáculos tauromáquicos em Lisboa, a Casa Pia, e conseguem que esta abra um concurso para a construção de uma nova praça, que foi ganho pela Empresa Tauromáquica Lisbonense. Com base num projecto do arquitecto António Dias da Silva, foi erguido um edifício de estilo neo-árabe, inspirado na antiga praça madrilena da Carretera de Aragón.
Os trabalhos, a cargo do engenheiro E. Boussard, iniciaram-se em 16 de Agosto de 1891 e duraram dois anos. O imóvel custou 161.200 réis, ocupava uma área de 5840 metros quadrados e possuía uma arena de 80 metros de diâmetro. Ao que parece, o reduzido diâmetro do redondel «não se subordinou às necessidades efectivas do espectáculo, mas sim ao máximo possível para um popular toureiro, que, sofrendo do coração, não podia sujeitar-se a longas correrias.» (Jaime Duarte de Almeida, «História da Tauromaquia», I volume). Ao longo de 108 anos, a praça do Campo Pequeno foi a primeira do país e a única praça portuguesa de temporada. Por ela passaram os maiores nomes do toureio a pé e a cavalo, da Península Ibérica e América Latina.
 Em 2000, o imóvel foi encerrado, devido a graves deficiências de conservação. Manteve-se assim até 2006, ano em que foi reinaugurado, depois de grandes obras realizadas pela Sociedade de Recuperação Urbana Campo Pequeno (SRUCP). O aspecto exterior da praça, com destaque para as suas típicas fachadas de tijolo, foi mantido. No interior, o recinto foi inteiramente renovado, nomeadamente com a instalação de uma cobertura amovível, que permite a realização de espectáculos durante todo o ano. Este esforço de reabilitação foi reconhecido dentro e fora do país. Em Portugal, o Campo Pequeno foi premiado com o Óscar ao Melhor Empreendimento do Ano, atribuído pela revista «Imobiliária». Por sua vez, a revista espanhola «6 Toros 6» concedeu à SRUCP o prémio à melhor instituição tauromáquica de 2006.

Glória que mata

Os touros dão fama e fortuna, mas também matam. É o que distingue o toureio de espectáculos como o teatro, por exemplo: na arena morre-se a sério. A crónica de sangue da Festa pode agora ser consultada em Los toros dan y quitan, um site que enumera as centenas de vítimas mortais da tauromaquia, desde diestros de renome a simples curiosos.

sábado, 10 de abril de 2010

A Pepe Luiz Vásquez, nos 60 anos de alternativa


Esse tímido colegial de resplendor trigueiro
na cabeça tão fina qual caroço de um fruto
é um toureiro novo de Sevilha a velha
que os antigos saberes perpetua e destila.

Ninguém sabe em que aulas cursou trívio e quadrívio.
Dizem que ao matadouro, como um Rembrandt obsesso,
acorria para ler nas vísceras violáceas
e nas rubras o signo do seu feliz planeta.


Menino entre os doutores da ciência do açougue
-que cena para um quadro soberbo de Velásquez!-
junto aos rostos cruéis do satânico ofício
espreita o seu, ainda mal florido de penugem.


Mas vede-o feito «outro Marte»: a nobre espada,
não a faca vulgar, na dextra já ungida,
e a borla suprema da escolástica jovial
como auréola simbólica por trás da fronte de ouro.


Para o touro em estátua, solene se encaminha.
Um passo, dois, três, quatro e uma ordem desdenhosa.
O negro touro observa-o, avalia-o, rumina-o
e na confusa noite de ferido instinto aguarda.


Agora já não são passos. É a alegre corrida
de longe e o repentino, encarniçado arranque
da receosa fera. Já é Marte contra Júpiter.
Que colisão -angústia- de duas órbitas lançadas.


Mas não. A sorte pode salvar-se a puro risco.
A astrologia pinta com firme pulso canho
o arco do destino. As entranhas não mentem.
Pepe Luis sorri ante a obra perfeita.


A essência de um toureio de cristal fino, fino,
a elegância que ignora a própria natureza,
a transparência encontraram já seu curso.
E sob o sol de Espanha há um toureiro novo.

Gerardo Diego (tradução de José Bento)

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Tomates

Elísio Sumavielle, secretário de Estado da Cultura, e António Costa, presidente da Câmara de Lisboa, estiveram presentes na corrida que inaugurou a temporada no Campo Pequeno, ontem à noite. António Costa aproveitou para agraciar José Luís Gomes com a Medalha de Mérito Municipal, na hora da despedida de cabo do grupo de forcados de Lisboa. Os dois políticos terão tido muitas razões para irem ao Campo Pequeno, desde o genuíno apreço pela festa - Sumavielle, pelo menos, gosta de toiros- à capitalização da simpatia dos aficionados. Mas num tempo de histeria «animalista» e de vassalagem ao politicamente correcto, uma coisa ninguém lhes pode negar: tomates.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Toureio português, esse desconhecido


A história do toureio em Portugal é em boa medida desconhecida. Apesar da importância do espectáculo tauromáquico no contexto da cultura popular dos últimos 300 anos, pouquíssimos estudiosos o têm abordado com o rigor científico que deve presidir a toda a investigação.
As escassas obras de tema taurino que se publicam, têm, na sua maioria, carácter biográfico, com o senão de versarem quase todas sobre figuras contemporâneas, e de misturarem, frequentemente, informação com bajulação. Contam e enumeram factos- mas raramente os encadeiam e explicam.
À falta de uma panorâmica geral do toureio português, que se aventure até às raízes, colha factos e os interprete, retire conclusões e construa teses, temos de continuar a basear-nos na antiga «História da Tauromaquia – Técnica e Evolução Artística do Toureio», de Jaime Duarte de Almeida, dada à estampa no início dos anos 50 do século passado.
A imprensa taurina poderia e deveria ter outro papel. Sobra nela a crítica requentada de espectáculos, a «bronca» de sarjeta, a opinião sem fundamento e o apontamento cor-de-rosa. Falta a reflexão com alguma profundidade, o texto informado e original, que vá para além do conhecimento que se pode colher em qualquer obra de generalidades tauromáquicas.
A acção da Secção de Municípios com Actividade Taurina,  da Associação Nacional de Municípios, é quase secreta. Numa época em que tanto se prega a transparência, os seus documentos não são acessíveis aos cidadãos, mas apenas aos municípios associados; não existem fundações ou outras instituições que promovam e incentivem os estudos taurinos; à parte colecções particulares, não existem museus tauromáquicos nem bibliotecas especializadas.
Os ventos mudarão? Quem sabe, um dia… Até lá, continuará a reinar o «conhecimento» mais ou menos mitificado, entre a verdade e a ilusão.