quarta-feira, 31 de março de 2010

Há cem anos, no Campo Pequeno

Em 1910, a temporada taurina no Campo Pequeno iniciou-se a 27 de Março, domingo de Páscoa, como era tradicional. Cartel misto, com os cavaleiros José Bento de Araújo e José Casimiro, o matador espanhol António Pazos e os bandarilheiros portugueses Teodoro, Cadete, Ribeiro Tomé e Manuel dos Santos, na lide de touros de Emílio Infante da Câmara. O nome do grupo de forcados interveniente não é referido pela revista «Ilustração Portuguesa», de 4 de Março de 1910, que informa que a corrida se realizou «debaixo de água». Mesmo assim, o público não arredou pé. Quanto ao resultado artístico, o «trabalho de cavaleiros e bandarilheiros agradou bastante, bem como o do espada Pazos, que soube conquistar as simpatias do público. Sem aquelas bátegas de água, que ainda assim não afugentaram os espectadores, teria sido um magnífico espectáculo a corrida com que se inaugurou a presente época no Campo Pequeno.»
José Bento de Araújo e José Casimiro, recorde-se, foram dois dos mais populares cavaleiros do início do século passado. Era a época do touro corrido, anterior ao fulgurante aparecimento de João Núncio, que introduziu na lide a cavalo um rigor e uma feição artística de que até aí carecia. Quanto a António Pazos, era um matador de mediana categoria. Doutorado em 1909, por Manuel Mejías Bienvenida, o seu nome ficou sobretudo conhecido por ter testemunhado a alternativa de Joselito, na feira sevilhana de San Miguel de 1912.

terça-feira, 30 de março de 2010

Ganadaria Grave investe no turismo taurino

A ganadaria Murteira Grave começou a apostar no turismo taurino, através da promoção de visitas à herdade da Galeana, onde é possível observar, no seu habitat natural, os já lendários touros da casa.
Situada no concelho de Mourão, a Galeana possui um notável valor paisagístico e tem na sua proximidade diversos pontos de interesse para o visitante. É o caso da barragem de Alqueva, da vila de Monsaraz e de S. Pedro do Corval, o maior centro oleiro do país. Segundo o site do ganadeiro, os visitantes «são transportados em reboques preparados e com total segurança, para visitar a ganadaria. Além de lotes de vacas com os sementais, podem ver-se os toiros de muito perto, constituindo um espectáculo emocionante.»  O programa inicia-se com um aperitivo de boas-vindas, às 10h30m. Segue-se um passeio à herdade com observação dos touros, às 11h, e um almoço típico num antigo celeiro, às 14h. As visitas terminam às 17h. Em época de tentaderos, podem os mesmos constar do programa.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Um grito na parede: origem e evolução do cartel taurino (II)

A Revolução Industrial (séculos XVIII-XIX) veio mecanizar e automatizar as artes gráficas. Surgem novas técnicas como a litografia e a cromolitografia, que vieram aperfeiçoar os desenhos e facilitar a impressão a cores. Aplicadas ao cartel taurino a partir de 1880, estas novas técnicas beneficiaram-no notavelmente. O tosco grafismo dos cartéis originários é substituído por imagens de apurada elaboração, cheias de detalhes e elementos decorativos, monocromáticas umas, outras com várias cores. Outra novidade desta época é o aparecimento dos chamados «programas de mão». Aos cartéis murais, de dois e mais metros, juntam-se folhetos de pequenas dimensões, que são distribuídos ao público. 
A transição entre os séculos XIX e XX é marcada culturalmente por uma diversidade de correntes: romantismo tardio, simbolismo, modernismo. As artes gráficas reflectem esta variedade de estilos e vivem momentos de fulgor. O cartelismo taurino é enriquecido com novos motivos e linguagens. Exploram-se as distintas fases da festa, com uma ou várias cenas que vão desde os touros no campo até ao momento da lide. Num registo barroco, sobrecarrega-se o conjunto com todo o tipo de símbolos: cabeças de touros, leques, utensílios da lide, grinaldas, brasões, etc.. Há todo um efeito teatral de «cartel dentro do cartel». Veja-se o que aqui se reproduz, datado de 1915. À luz de um candeeiro (é a inauguração das touradas nocturnas no Campo Pequeno...) um grupo de espectadores aponta para os nomes dos lidadores, o cavaleiro José Casimiro e o matador Agustín García Malla, numa composição de magnífico efeito.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Praças de touros de Lisboa (III)

A praça de touros do Campo de Santana, uma das de maior historial de Lisboa, foi inaugurada em 3 de Julho de 1831. Na presença do rei D. Miguel e da infanta D. Maria da Assunção, sua irmã, foram lidados, nada menos que 16 touros, pertencentes à ganadaria real. A cavalo luziram-se João Ferreira Grilo e António Máximo de Amorim Veloso, e a pé os espadas Sebastião Garcia e Pedro José Rodrigues. Actuou ainda um grupo de forcados, presumivelmente do Ribatejo.
Diz o conde de Sabugosa, no seu livro «Embrechados», que a decisão de construir a praça partiu do próprio soberano. «Um dia que o infante D. Miguel, então aclamado rei, determinou dar uma tourada em benefício duma obra de caridade, soube que o empresário da velha praça do Salitre», José Serrate, «levantava dificuldades e regateava pelo preço do aluguer». D. Miguel mandou então chamar o seu amigo Sedvem, famoso cavaleiro, «encarregou-o de dirigir a obra de construção imediata de uma nova praça, sem olhar a despesas, e fez publicar um decreto que dava à Real Casa Pia o privilégio da receita daquela e de outras praças nalgumas léguas em redor. Ficou o D. José Serrate a chuchar no dedo e o público contente com o circo novo e com a pirraça feita ao onzeneiro director.»
Apesar da piada desta versão sobre a origem da velha praça, os factos parecem ter sido diferentes. Em primeiro lugar, o privilégio da Casa Pia de que fala o conde de Sabugosa, foi atribuído àquela instituição logo em 1821, por decreto de D. João VI. O que D. Miguel fez, segundo a edição de 8 de Setembro de 1830 da «Gazeta de Lisboa», foi confirmar este direito, a requerimento do administrador - hoje chamar-se-ia provedor - da Casa Pia, António Joaquim dos Santos. Afirma D. Miguel que «Hei por bem confirmar a mercê de que goza a mesma Casa Pia, e que lhe foi conferida por el-rei meu senhor e pai, que Santa Glória haja, de serem somente em seu benefício permitidas as corridas de touros na cidade de Lisboa.»
No mesmo decreto, e também a requerimento do provedor, diz o rei: «E hei outrossim por bem, deferindo ao que o dito administrador me suplicou, conceder licença para que no Campo de Santa Ana se possa construir para o dito fim, uma praça de touros na forma da planta que será com este; sendo a despesa da sua construção suprida pelo cofre da sobredita Real Casa Pia, com tal regularidade, e economia, que por este motivo não falte às outras despesas indispensáveis daquele tão subtil estabelecimento.» Ou seja: D. Miguel licencia a construção da praça, de acordo com planta anexa ao decreto, correndo os custos do empreendimento por conta da Casa Pia.
A praça localizar-se-ia onde actualmente se encontra a Faculdade de Medicina. A sua planta foi da autoria do arquitecto camarário Malaquias Ferreira Leal e, rezam os registos, era feita de madeira e tinha capacidade para seis mil espectadores.
Pelo Campo de Santana passaram afamados cavaleiros amadores, caso do conde de Vimioso e do marquês de Castelo Melhor, e também profissionais, como Francisco Carlos Batalha e Manuel Mourisca Júnior. Na lide dita à espanhola, os espectadores aplaudiram os históricos matadores Cúchares, Frascuelo, Lagartijo, Mazzantini Gordito. Este último, considerado no seu tempo um ás das bandarilhas, terá aprendido boa parte da técnica com os bandarilheiros portugueses que se exibiam no Campo de Santana. Entre eles, destacavam-se João Alberto Rebelo (João Barbeiro), Joaquim Russo, José de Sousa Cadete, António Roberto da Fonseca e seus filhos, Roberto e Vicente, João da Cruz Calabaça, José Joaquim Peixinho e Manuel Botas.
«O público elegia favoritos. Gostava das suíças loiras dos irmãos Robertos, do penteado burocrático do gordo Peixinho», escreve o conde de Sabugosa. «Tinha também antipatias invencíveis. E ai da vítima que pretendia desforçar-se, manifestar mesmo um movimento de mau humor, resistir!»
O encerramento e demolição da praça do Campo de Santana, em 1889, foi ditado pelas suas escassas condições de segurança, que faziam temer um desastre semelhante ao ocorrido no teatro Baquet, no Porto, que provocou mais de cem mortos. O desaparecimento da praça provocou as mágoas de muitos lisboetas. Prossegue o conde de Sabugosa: «Na poeira que levantavam ao desmoronarem-se os muros pintados a vermelho, as tábuas azuis e brancas, as trincheiras e os palanques, iam os últimos ecos de muitas tardes alegres, do estalar festivo dos foguetes, dos trombones desafinados da fanfarra da Casa Pia, mugidos dos bois, pregões do homem dos pastelinhos e água fresca, assobios estrídulos da multidão, piadas do sol gritadas por vozes avinhadas e roucas troçando do lavrador, do inteligente, lançando trocadilhos petulantes, que faziam rir cinco mil bocas numa gargalhada.»

quarta-feira, 24 de março de 2010

Um grito na parede: origem e evolução do cartel taurino (I)

Alguém chamou ao cartaz «um grito na parede». Porque quando o cartaz era o principal meio publicitário ou propagandístico, e as paredes das ruas o seu espaço natural, ele devia ter a força de um grito capaz de atrair a atenção de quem passava. No antigo e variadíssimo universo dos cartazes, destacam-se os que anunciavam a realização de corridas de toiros: os cartéis taurinos.
Em Espanha, o primeiro cartel assinalado é de 1737. Publicita uma função taurina em Madrid, apenas com a actuação de cavaleiros. Entre nós, a inexistência de estudos nesta matéria não permite uma datação precisa. Mas sabe-se que em meados do século XVIII os programas das corridas realizadas no Terreiro do Paço eram afixados num mastro colocado no centro da praça. Uma notícia de 18 de Agosto de 1752, publicada na «Gazeta de Lisboa», reza: «A 11 se fixou no Mastro do Terreiro do Paço (índice da festividade dos Touros) um Edital pelo qual se adverte a todos que esta terá princípio na segunda-feira, 28 deste mês.»
Begoña Torres González, estudiosa do cartel taurino, escreve que durante o século XVIII os cartéis são «de formato horizontal, enquadrados por uma orla tipográfica e um título com a fórmula de rigor: ‘O Rei Nosso Senhor (que Deus guarde) foi servido de assinalar…’. Este esquema mantém-se ininterrupto até aos anos 40 do século XIX» (revista «Museo», nº 3, 1998). A partir daí verificam-se mudanças. O cartel adquire um formato vertical e «as tradicionais fórmulas da realeza» desaparecem, «para anotar unicamente, em grandes maiúsculas: ‘Praça de Touros de…’».
Exemplo destas alterações é um cartel da praça do Campo de Santana, de 1860: vertical, com o nome da praça e o número de reses a lidar em grande destaque. Com menor realce, o nome do cavaleiro – Diogo Henriques Bettencourt- e dos bandarilheiros. Como era típico dos cartéis da época, os caracteres são de diferentes tipos. Salientem-se os pesados caracteres que compõem a frase «14 TOUROS», decorados com elementos vegetalistas.
A simplicidade destes primeiros prospectos, realça Begoña Torres González, deriva do facto do cartel taurino se tratar «de um tipo de impresso eminentemente popular», que não requeria um tipo de letra único, nem tinha «preocupações estéticas ou de originalidade.» Mas esta situação alterou-se, como adiante veremos.

sábado, 20 de março de 2010

Não haveria Perera sem Ojeda



Figuras como José Tomás, El Juli, Miguel Ángel Perera e Sebastián Castella praticam um toureio de quietude e verticalidade, feito de passes ligados num palmo de terreno. A sua técnica é o resultado de muitos anos de depuração do toureio, de aprofundamento do conhecimento do touro e dos seus terrenos. E também de «afinação» da bravura, que permite que o toureiros de hoje se coloquem em terrenos dantes considerados inverosímeis. Não haveria Tomás ou Perera se não tivessem existido Belmonte - dos primeiros a pisar terrenos «proibidos»-, Manolete - com o seu dramático estatismo -, El Cordobés - uma técnica prodigiosa, apesar dos impulsos clownescos- ou Paco Ojeda - a quietude, a ligação e o arrojo vestidos de luces. De Ojeda é esta faena na praça francesa de Dax, em Agosto de 1987, a um pupilo de Zalduendo, bronco e perigoso. Observe-se o valor de Ojeda perante a brusquidão e o constante cabecear do touro, sem uma dúvida, sem uma hesitação... E o alarde final, com o touro e o público rendidos ao poderio do toureiro de Sanlúcar.(Imagens:phiphi64)

sexta-feira, 19 de março de 2010

Retrato de um senhor


O ganadeiro português Fernando Pereira Palha (imagem extraída de camposyruedos).