quarta-feira, 17 de março de 2010

Por falar em mexicanos...


Através de laaldeadetauro, tivemos acesso ao site dedicado ao matador mexicano Silvério Pérez, um dos grande ases do toureiro asteca dos anos 40 e 50. Clicando aqui, ficaremos a conhecer melhor a carreira daquele a quem chamaram o Faraón de Texcoco, e a quem Agustín Lara dedicou um belíssimo pasodoble. Silvério Pérez, outro dos mexicanos que passaram por Portugal, faleceu em 2005.

terça-feira, 16 de março de 2010

Mexicanos em Portugal


Entre 1936 e 1944, as relações taurinas entre a Espanha e o México estiveram suspensas. Os toureiros mexicanos não podiam actuar em Espanha e os espanhóis no México. Ao que parece, a ruptura não foi mais do que uma reacção de algumas figuras do toureio do país vizinho, com Marcial Lalanda e Vitoriano de la Serna à cabeça, ao enorme interesse que o asteca Fermín Espinosa Armillita estava a despertar entre o público hispânico. Juan Belmonte, o Pasmo de Triana, chamou-lhe o «boicote do medo».
Enquanto aguardavam o fim da proibição, numerosos toureiros mexicanos radicaram-se em Portugal, em busca de oportunidades e de fama. Uns eram já figuras no México, como o já referido Armillita, Silvério Pérez, Luis Procuna ou Fermín Rivera; outros, pelo contrário, não passavam de ilustres desconhecidos.
Alguns matadores mexicanos tinham já obtido assinalável êxito em praças portuguesas na primeira metade da década de 30. Foi o caso de Luís Castro, El Soldado, que obtém clamorosos triunfos no Campo Pequeno. «Toda a gente sabia que numa corrida em que actuasse El Soldado veria tourear com emoção e fossem quais fossem as condições dos toiros, alguma coisa de bom lhe seria dado observar», escreveu Jaime Duarte de Almeida («Os Mexicanos em Portugal»). Na senda de El Soldado, os seus compatriotas Lorenzo Garza e Ricardo Torres deixaram também excelentes credenciais entre nós.
Uma segunda vaga de diestros astecas chega a Portugal em 1943. Conta o aficionado e ganadeiro Francisco Palha Botelho Neves que «um ‘taurino’ desembaraçado e esperto, de nome Júlio Ginja, concertou com a empresa do Campo Pequeno, então regida pelo cambista José Ricardo Domingues, a contratação em grupo de vários ‘espadas’ mexicanos». Ginja deslocou-se ao México e ali contratou, com a promessa dum mínimo «de uma ou duas corridas no Campo Pequeno», os espadas Felipe González, Antonio Rangel, Leopoldo Ramos, Arturo Álvarez Vizcaíno, Carlos Vera Cañitas e Gregório García. Como condição, impôs que «cada toureiro importasse consigo e em seu nome, para Portugal, um automóvel novo.»
Esta exigência tinha pouco de taurino, mas muito de prático. Viviam-se então os anos da II Guerra Mundial, e a importação de veículos era extremamente limitada. Graças à esperteza de Ginja, o parque automóvel português foi enriquecido com novos exemplares. O «aparecimento de viaturas de procedência americana em Lisboa – e sendo tais veículos automóveis de grande luxo – deu nas vistas e alcançaram tais carros valores verdadeiramente especulativos», acrescenta Botelho Neves.  Foi por isso que «se passaram a identificar os automóveis de luxo como ‘espadas’, adjectivo que se vem mantendo até aos dias de hoje.» («Novo Burladero», nº 40)
Do lote de mexicanos contratado por Ginja destacou-se Gregório García, que se estreou no Campo Pequeno em 20 de Junho de 1943, com João Núncio, Simão da Veiga e o diestro espanhol El Estudiante.
O mexicano foi o indiscutível triunfador e a grande surpresa da tarde. «Gregório não impressionou pela arte, nem pela técnica, nem pelo sabor», admite o crítico Solilóquio. «Mas desprendia-se dele um não sei quê, um sortilégio, mistura explosiva de destemor, arrogância e simpatia, que desde os primeiros instantes em que se abriu de capa prenderam as gentes, não mais as largaram.» («A Última Tarde»).
Em pouco tempo Gregório tornou-se um ídolo. «Os táxis, os telefones, o correio, o telégrafo, os grooms dos cafés e dos dancings, tudo se mexeu num ritmo acelerado durante a estadia de Gregório no nosso País. Era Gregório por toda a parte!...» O público feminino adorava o mexicano. «À saída da praça, as mulheres perdiam-se dos maridos na ânsia de ver e tocar aquele que vinha do desconhecido surpreender e desarrumar tudo» («Diamantino Vizeu: memórias de um toureiro»). Só outro matador mexicano conseguiu aproximar-se da popularidade de Gregório: Carlos Arruza, que com o seu estilo desembaraçado e comunicativo também triunfou em Portugal.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Matador

O poeta desdobra a sua capa
está na página em branco a luz e oiro
para lidar o verso que lhe escapa
como o toiro na arena como o toiro.

Um natural. Depois um derechazo
para quebrar do verso o negro impulso
buscando aquela parte do cachaço
onde se enterra a espada até ao pulso.

E pode então cortar rabos e orelhas
agradecer aos tércios: matador
sob as farpas do sol. Torres vermelhas.


Sai o poetas aos ombros: luz e oiro
enquanto um verso jaz de negra cor
como o toiro na arena como o toiro.

Manuel Alegre («Sonetos do Obscuro Quê»)

sábado, 13 de março de 2010

Praças de touros de Lisboa (II)

A praça de touros do Salitre, situada nos terrenos da rua com o mesmo nome, terá sido construída entre 1777 e 1780. Rodovalho Duro afirma que a praça foi inaugurada em 4 de Junho de 1790. No entanto, o olissipógrafo Gustavo de Matos Sequeira teve notícia «por alguns bilhetes de entrada que escaparam ao lixo, de terem havido corridas no Salitre antes de 1790» («Depois do Terramoto», vol.II).
Foi seu construtor e primeiro empresário o boticário João Gomes Varela, que, segundo Matos Sequeira, «também empunhava o rojão e sobraçava a capa de toureiro a pé».  De acordo com o mesmo autor, a praça «era sobre o quadrado. De um lado do anfiteatro tinha camarotes, para os aficionados de cotação social, destinando-se um deles à autoridade que era, então, o corregedor do bairro dos Remolares; do outro lado, lugares de sombra e sol. Em toda a volta, bancadas para o povo miúdo. Posteriormente alterou-se o aspecto do tauródromo e a forma quadrada foi adoçada de modo a apresentar um círculo. Assim era em 1879, antes da demolição.»
Pisaram a arena do Salitre cavaleiros como João António Maria Gambetta, José António de Sousa Belo, João Ferreira Grilo e António Máximo de Amorim Veloso. A pé, terão actuado os bandarilheiros António do Carmo Faria, Pedro Rodrigues e José Rodrigues e ainda Sebastião Garcia, também conhecido por Calabaça. Este último terá nascido em Espanha e aí actuado como matador entre 1816 e 1820. «Apesar de ter boa figura e grande simpatia no ruedo e fora dele, o seu trabalho não era muito aceitável», o que o levou a emigrar para Portugal (José Maria de Cossío, «Los Toros», vol. 3).
Sebastião Garcia tornou-se popularíssimo no nosso país, sendo considerado um dos melhores lidadores da sua época. Amigo e confidente do rei D. Miguel, encontrou a morte junto deste. «Quando D. Miguel, nos derradeiros dias do seu reinado esteve em Santarém, talvez já suspeitando de que em breve ficaria privado do seu divertimento favorito, organizou algumas brincadeiras, num pátio da cidade. Numa delas, Calabaça saiu para o touro que o carregou obrigando-o a tentar escapar-se por um janela que um campino estupidamente fechou, dando em resultado o toureiro ser colhido com tal gravidade que das feridas veio a morrer no hospital de Santarém» (Francisco Câncio, «Arquivo Alfacinha», vol. I).

sexta-feira, 12 de março de 2010

quarta-feira, 10 de março de 2010

Tauromaquias do mundo: o «jallikattu»

O confronto entre homens e touros assume múltiplas versões. Todas as regiões do mundo onde existem reses bravas têm as suas tauromaquias, com raizes que se estendem a tempos remotos e quase sempre com conotações religiosas. No estado de Tamil Nadu, no sul da Índia, realiza-se todos os anos o Pongal, uma festividade religiosa hindu que visa celebrar as colheitas. Um dos pontos altos do festival é o jallikattu, uma modalidade que consiste em imobilizar touros bravos de raças autóctones como a gaur. Os vencedores recebem prémios, que consistem muitas vezes em sacos de dinheiro que estão amarrados aos cornos do animal.

terça-feira, 9 de março de 2010

Praças de touros de Lisboa (I)

Antes do século XVIII, em Lisboa como noutras cidades da Península Ibérica, dificilmente se pode falar na existência de praças de touros como hoje as conhecemos. Isto é, imóveis com carácter permanente, construídos com o objectivo de neles se realizarem regularmente espectáculos tauromáquicos. Até esse período, os festejos taurinos realizados em Lisboa tinham lugar em praças públicas, como o Rossio e o Terreiro do Paço, ou em tauródromos de pequena dimensão, construídas por reis e nobres para seu recreio pessoal. Foi o caso da praça de Xabregas, mandada edificar por D. Sebastião, por volta de 1575. No século XVII, o da dominação filipina e das guerras da Restauração, o figurino não mudou substancialmente. À falta de recintos mais adequados, as funções tauromáquicas mais importantes, como as touradas em honra da realeza, efectuavam-se em praças públicas.
Mas chega o século XVIII - e com ele uma nova concepção dos espectáculos públicos. Para acomodar um público gradualmente mais exigente, erguem-se praças de touros na Junqueira, em 1738, no Largo da Anunciada, em 1739, no Campo Pequeno, em 1740, e na Estrela, em 1763. Esta última, situada no Casal da Estrela, um arrabalde lisboeta onde existiam hortas, terá sido uma das mais notáveis. A praça tinha forma oitavada e estava adornada com estátuas.
A crer numa portaria de 18 de Maio de 1763, a praça da Estrela foi edificada a petição das freiras clarissas do mosteiro de Sacavém, para a realização de uma série de seis espectáculos tauromáquicos, que lhes permitissem terminar a capela do convento. Destes espectáculos não há notícias. Há, isso sim, de uma corrida ali realizada, também em 1763, organizada por Francisco de Matos Pereira Souto, criado do infante D. Pedro, descrita na «Nova relação e verdadeira notícia exposta ao público, das magníficas e vistosas festas de toiros que se hão-de celebrar no sítio do casal da Estrela...».