A praça de touros do Salitre, situada nos terrenos da rua com o mesmo nome, terá sido construída entre 1777 e 1780. Rodovalho Duro afirma que a praça foi inaugurada em 4 de Junho de 1790. No entanto, o olissipógrafo Gustavo de Matos Sequeira teve notícia «por alguns bilhetes de entrada que escaparam ao lixo, de terem havido corridas no Salitre antes de 1790» («Depois do Terramoto», vol.II).
Foi seu construtor e primeiro empresário o boticário João Gomes Varela, que, segundo Matos Sequeira, «também empunhava o rojão e sobraçava a capa de toureiro a pé». De acordo com o mesmo autor, a praça «era sobre o quadrado. De um lado do anfiteatro tinha camarotes, para os aficionados de cotação social, destinando-se um deles à autoridade que era, então, o corregedor do bairro dos Remolares; do outro lado, lugares de sombra e sol. Em toda a volta, bancadas para o povo miúdo. Posteriormente alterou-se o aspecto do tauródromo e a forma quadrada foi adoçada de modo a apresentar um círculo. Assim era em 1879, antes da demolição.»
Pisaram a arena do Salitre cavaleiros como João António Maria Gambetta, José António de Sousa Belo, João Ferreira Grilo e António Máximo de Amorim Veloso. A pé, terão actuado os bandarilheiros António do Carmo Faria, Pedro Rodrigues e José Rodrigues e ainda Sebastião Garcia, também conhecido por Calabaça. Este último terá nascido em Espanha e aí actuado como matador entre 1816 e 1820. «Apesar de ter boa figura e grande simpatia no ruedo e fora dele, o seu trabalho não era muito aceitável», o que o levou a emigrar para Portugal (José Maria de Cossío, «Los Toros», vol. 3).
Sebastião Garcia tornou-se popularíssimo no nosso país, sendo considerado um dos melhores lidadores da sua época. Amigo e confidente do rei D. Miguel, encontrou a morte junto deste. «Quando D. Miguel, nos derradeiros dias do seu reinado esteve em Santarém, talvez já suspeitando de que em breve ficaria privado do seu divertimento favorito, organizou algumas brincadeiras, num pátio da cidade. Numa delas, Calabaça saiu para o touro que o carregou obrigando-o a tentar escapar-se por um janela que um campino estupidamente fechou, dando em resultado o toureiro ser colhido com tal gravidade que das feridas veio a morrer no hospital de Santarém» (Francisco Câncio, «Arquivo Alfacinha», vol. I).
sábado, 13 de março de 2010
sexta-feira, 12 de março de 2010
quarta-feira, 10 de março de 2010
Tauromaquias do mundo: o «jallikattu»
O confronto entre homens e touros assume múltiplas versões. Todas as regiões do mundo onde existem reses bravas têm as suas tauromaquias, com raizes que se estendem a tempos remotos e quase sempre com conotações religiosas. No estado de Tamil Nadu, no sul da Índia, realiza-se todos os anos o Pongal, uma festividade religiosa hindu que visa celebrar as colheitas. Um dos pontos altos do festival é o jallikattu, uma modalidade que consiste em imobilizar touros bravos de raças autóctones como a gaur. Os vencedores recebem prémios, que consistem muitas vezes em sacos de dinheiro que estão amarrados aos cornos do animal.
terça-feira, 9 de março de 2010
Praças de touros de Lisboa (I)
Antes do século XVIII, em Lisboa como noutras cidades da Península Ibérica, dificilmente se pode falar na existência de praças de touros como hoje as conhecemos. Isto é, imóveis com carácter permanente, construídos com o objectivo de neles se realizarem regularmente espectáculos tauromáquicos. Até esse período, os festejos taurinos realizados em Lisboa tinham lugar em praças públicas, como o Rossio e o Terreiro do Paço, ou em tauródromos de pequena dimensão, construídas por reis e nobres para seu recreio pessoal. Foi o caso da praça de Xabregas, mandada edificar por D. Sebastião, por volta de 1575. No século XVII, o da dominação filipina e das guerras da Restauração, o figurino não mudou substancialmente. À falta de recintos mais adequados, as funções tauromáquicas mais importantes, como as touradas em honra da realeza, efectuavam-se em praças públicas.
Mas chega o século XVIII - e com ele uma nova concepção dos espectáculos públicos. Para acomodar um público gradualmente mais exigente, erguem-se praças de touros na Junqueira, em 1738, no Largo da Anunciada, em 1739, no Campo Pequeno, em 1740, e na Estrela, em 1763. Esta última, situada no Casal da Estrela, um arrabalde lisboeta onde existiam hortas, terá sido uma das mais notáveis. A praça tinha forma oitavada e estava adornada com estátuas.
A crer numa portaria de 18 de Maio de 1763, a praça da Estrela foi edificada a petição das freiras clarissas do mosteiro de Sacavém, para a realização de uma série de seis espectáculos tauromáquicos, que lhes permitissem terminar a capela do convento. Destes espectáculos não há notícias. Há, isso sim, de uma corrida ali realizada, também em 1763, organizada por Francisco de Matos Pereira Souto, criado do infante D. Pedro, descrita na «Nova relação e verdadeira notícia exposta ao público, das magníficas e vistosas festas de toiros que se hão-de celebrar no sítio do casal da Estrela...».
Mas chega o século XVIII - e com ele uma nova concepção dos espectáculos públicos. Para acomodar um público gradualmente mais exigente, erguem-se praças de touros na Junqueira, em 1738, no Largo da Anunciada, em 1739, no Campo Pequeno, em 1740, e na Estrela, em 1763. Esta última, situada no Casal da Estrela, um arrabalde lisboeta onde existiam hortas, terá sido uma das mais notáveis. A praça tinha forma oitavada e estava adornada com estátuas.
A crer numa portaria de 18 de Maio de 1763, a praça da Estrela foi edificada a petição das freiras clarissas do mosteiro de Sacavém, para a realização de uma série de seis espectáculos tauromáquicos, que lhes permitissem terminar a capela do convento. Destes espectáculos não há notícias. Há, isso sim, de uma corrida ali realizada, também em 1763, organizada por Francisco de Matos Pereira Souto, criado do infante D. Pedro, descrita na «Nova relação e verdadeira notícia exposta ao público, das magníficas e vistosas festas de toiros que se hão-de celebrar no sítio do casal da Estrela...».
Gallito em Aveiro
José Gomez Ortega (1895-1920), também conhecido como Gallito ou Joselito, foi para muitos o maior toureiro de todos os tempos. Com Juan Belmonte, Gallito protagonizou a Idade de Ouro do toureio, que terminou na arena de Talavera de la Reina, quando o toiro Bailador o colheu mortalmente.
Joselito iniciou a sua carreira como bezerrista, integrado na quadrilha infantil dos Niños Sevillanos, na qual fazia duo com José Garate Limeño. Os Niños Sevillanos actuaram em diversas praças portuguesas na primeira década do século passado, com assinalável êxito. O mais novo dos Gallos, com os seus 13 ou 14 anos, já estão dava mostras do genial toureiro que viria a ser.
A morte de Gallito comoveu todo o planeta taurino. A revista «Ilustração Portuguesa», na sua edição de 31 de Maio de 1920, recordou a passagem dos Niños Sevillanos por Aveiro, onde participaram numa corrida organizada pelo Clube Mário Duarte. Na imagem, possivelmente datada de 1908, vemos os jovens Joselito e Limeño, ao lado dum bandarilheiro.
O Clube Mário Duarte, fundado pelo célebre desportista aveirense do mesmo nome, caracterizava-se por ter uma secção de tauromaquia, a par de secções de futebol, esgrima, remo e ciclismo. O próprio Mário Duarte (1869-1939), avô do poeta e político Manuel Alegre, distinguiu-se como toureiro amador, tendo sido bandarilheiro e cavaleiro.
Joselito iniciou a sua carreira como bezerrista, integrado na quadrilha infantil dos Niños Sevillanos, na qual fazia duo com José Garate Limeño. Os Niños Sevillanos actuaram em diversas praças portuguesas na primeira década do século passado, com assinalável êxito. O mais novo dos Gallos, com os seus 13 ou 14 anos, já estão dava mostras do genial toureiro que viria a ser.
A morte de Gallito comoveu todo o planeta taurino. A revista «Ilustração Portuguesa», na sua edição de 31 de Maio de 1920, recordou a passagem dos Niños Sevillanos por Aveiro, onde participaram numa corrida organizada pelo Clube Mário Duarte. Na imagem, possivelmente datada de 1908, vemos os jovens Joselito e Limeño, ao lado dum bandarilheiro.
O Clube Mário Duarte, fundado pelo célebre desportista aveirense do mesmo nome, caracterizava-se por ter uma secção de tauromaquia, a par de secções de futebol, esgrima, remo e ciclismo. O próprio Mário Duarte (1869-1939), avô do poeta e político Manuel Alegre, distinguiu-se como toureiro amador, tendo sido bandarilheiro e cavaleiro.
segunda-feira, 8 de março de 2010
quinta-feira, 4 de março de 2010
«Per El Yiyo»: elegia para um toureiro
As obras de tema tauromáquico escasseiam no mercado português. A produção nacional é diminuta e nem sempre o que se publica chega às bancas, por dificuldades de distribuição ou outras. Quanto às obras editadas em países como a França e a Espanha, que são inúmeras, não conseguem vencer os diques do desinteresse dos nossos livreiros. É certo que a Internet está aí, mas nem toda a gente se ajeita a encomendar livros por essa via.
De vez em quando, porém, o mercado reserva-nos surpresas. É o caso de «Per El Yiyo», do poeta francês Bernard Manciet, editado em 2002 pela Campo das Letras. O livro é uma elegia ao toureiro José Cubero El Yiyo, tragicamente morto na praça de Colmenar Viejo, em 1985. Formado por um único poema, dividido em quatro partes, a obra tem uma estrutura dramática, com um conjunto de personagens (o Touro, a Criança, o Primogénito, o Morto) e, à maneira da tragédia grega, um coro.
O seu autor, Bernard Manciet (1923-2005), nasceu em Sabres, cidade do departamento de Landes, no sudoente da França. Grande parte da sua obra foi escrita em gascão, a língua original da região da Aquitânia, onde o poeta nasceu.
De «Per El Yiyo»: «O Touro: Afagas-me com a tua voz ácida e dourada/é como afagar o infortúnio/antigo e o tormento dos mortos/que transporto sobre o coração/mas tem cuidado porque sou avesso a carícias/depois de tantos séculos de amargura/o nosso deus das profundezas não gosta do roçar da/ felicidade/cuidado que não destrua eu o dia» (Tradução de José Nogueira Gil)
De vez em quando, porém, o mercado reserva-nos surpresas. É o caso de «Per El Yiyo», do poeta francês Bernard Manciet, editado em 2002 pela Campo das Letras. O livro é uma elegia ao toureiro José Cubero El Yiyo, tragicamente morto na praça de Colmenar Viejo, em 1985. Formado por um único poema, dividido em quatro partes, a obra tem uma estrutura dramática, com um conjunto de personagens (o Touro, a Criança, o Primogénito, o Morto) e, à maneira da tragédia grega, um coro.
O seu autor, Bernard Manciet (1923-2005), nasceu em Sabres, cidade do departamento de Landes, no sudoente da França. Grande parte da sua obra foi escrita em gascão, a língua original da região da Aquitânia, onde o poeta nasceu.
De «Per El Yiyo»: «O Touro: Afagas-me com a tua voz ácida e dourada/é como afagar o infortúnio/antigo e o tormento dos mortos/que transporto sobre o coração/mas tem cuidado porque sou avesso a carícias/depois de tantos séculos de amargura/o nosso deus das profundezas não gosta do roçar da/ felicidade/cuidado que não destrua eu o dia» (Tradução de José Nogueira Gil)
quarta-feira, 3 de março de 2010
Quando o título engana
Nasceu em 3 de Maio de 1836 e intitulava-se «O Toureiro». Se o título e a gravura do cabeçalho correspondessem ao conteúdo, poderia ser considerado o primeiro periódico taurino português. Contudo, as aparências iludem: «O Toureiro» não foi um jornal tauromáquico, mas sim uma folha de combate político, de simpatias miguelistas.
«O Toureiro» surge em pleno regime cartista, dois anos após o fim da Guerra Civil e do triunfo do liberalismo. Reinava então D. Maria II, à luz da Carta Constitucional, e D. Miguel partira para o exílio. Porém, as feridas abertas pela guerra não estavam ainda completamente cicatrizadas, e as divisões entre liberais e absolutistas, ou miguelistas, ainda se faziam notar na sociedade portuguesa. Partidário destes últimos, «O Toureiro» propõe-se «farpear os touros da Travessa dos Ladrões» e um tal «Barão dos cofres roubados», «façanhudo devorador». Os redactores d'«O Toureiro» são anónimos, como convinha a quem desafiava a ordem estabelecida. Sabe-se apenas que era impresso na Tipografia Morandiana, na Rua dos Calafates, 134, Lisboa.
«O Toureiro» surge em pleno regime cartista, dois anos após o fim da Guerra Civil e do triunfo do liberalismo. Reinava então D. Maria II, à luz da Carta Constitucional, e D. Miguel partira para o exílio. Porém, as feridas abertas pela guerra não estavam ainda completamente cicatrizadas, e as divisões entre liberais e absolutistas, ou miguelistas, ainda se faziam notar na sociedade portuguesa. Partidário destes últimos, «O Toureiro» propõe-se «farpear os touros da Travessa dos Ladrões» e um tal «Barão dos cofres roubados», «façanhudo devorador». Os redactores d'«O Toureiro» são anónimos, como convinha a quem desafiava a ordem estabelecida. Sabe-se apenas que era impresso na Tipografia Morandiana, na Rua dos Calafates, 134, Lisboa.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Fedération des Sociétés Taurines de France faz 100 anos
A Fedération des Sociétés Taurines de France (FSTF), a mais importante associação de clubes taurinos francesa, celebra dentro de dias o seu 100º aniversário. Tudo começou a 6 de Março de 1910, quando Monsieur Cluzel, presidente do clube «La Montera», de Montpellier, convocou os dirigentes de 26 associações taurinas francesas, com o objectivo de constituirem um orgão federativo que lutasse pelo reconhecimento legal das corridas de touros no país.
O espectáculo taurino atravessava então em França um período de indefinição legal, pois certas autoridades consideravam que as corridas estavam abrangidas pela lei que proibia os maus-tratos a animais, a chamada Lei Grammont, de 1850. Se em certas regiões a administração consentia as corridas, noutras não eram permitidas. Por fim, em 1951, a assembleia nacional francesa decidiu que a Lei Grammont não se aplicava aos espectáculos tauromáquicos realizados em localidades com uma tradição taurina ininterrupta. Esta alteração foi sugerida aos deputados pelo então presidente da FSTF.
Outro marco na história da FSTS foi o impulso dado à criação da Union des Villes Taurines Françaises, em 1966, e ao Regulamento Taurino francês. Actualmente, conta com um total de 70 clubes federados, de todas as regiões francesas e de Bruxelas, o que atesta a vitalidade da Festa na pátria de Sebastián Castella. Os princípios da FSTF, hoje como ontem, são a luta pela manutenção da ética nas corridas, pela integridade do toiro e pela defesa dos interesses dos aficionados.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Gosta de corridas de toiros? Saiba defendê-las. Não gosta? Saiba compreendê-las
É esta a epígrafe do último livro de Francis Wolff, «50 Razones para Defender las Corridas de Toros», distribuído gratuitamente com a edição de ontem, 24 de Fevereiro, da revista espanhola «6 Toros 6», à venda em muitos pontos do nosso país. Francis Wolff, recorde-se, é um filósofo francês - professor catedrático na Universidade de Paris- que se tem distinguido na reflexão sobre o fenómeno taurino e na sua defesa com base em pressupostos filosóficos.
Nas suas 90 páginas, a obra recolhe, de forma «sintética e acessível», 50 argumentos que contrariam as teses dos alegados «defensores» dos animais. Por exemplo, à questão «as corridas de toiros são tortura?», Wolff responde: «as corridas não têm como objectivo fazer sofrer um animal»; «as corridas não teriam nenhum sentido sem a luta do toiro»; «as corridas não teriam nenhum sentido sem o risco de morte do toureiro»; «se um toiro fosse torturado fugiria»; «falar de tortura não é confundir o homem com o toiro?»
Seguem-se muitas outras respostas a interrogações como o sofrimento do toiro; a morte do toiro; os toiros e o meio ambiente; a corrida como espectáculo; a festa de toiros na cultura e na história; a corrida e os valores humanistas; a festa de toiros é criadora de inestimáveis valores estéticos e, por último, os perigos do animalismo.
Há uma referência a Portugal, quando se pergunta se seria possível não matar o touro em público, como prescreve a lei portuguesa. A morte pública, salienta o filósofo, é um «fim necessário da cerimónia sacrificial» que o toureio constitui. Uma morte «ocultada» seria mais cruel para o animal. «Um toiro que sai vivo do ruedo terá que esperar várias horas antes de ser levado para o matadouro (...) A única beneficiada desta solução seria a hipocrisia: o que não se vê não existe».
«Quem são os bárbaros?», pergunta Francis Wolff em jeito de conclusão. Os aficionados ou «os antitaurinos que, em nome do (suposto) bem-estar dos animais, que consideram superiores aos seres humanos, pretendem matar uma forma de arte e criação arreigada na história e inserida na nossa modernidade»?
«50 Razones para Defender las Corridas de Toros», que merece tradução urgente para português, é um inestimável breviário da filosofia da Festa e um precioso instrumento de defesa contra os que a pretendem agredir.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Tauromaquia no Conselho Nacional de Cultura
O Ministério da Cultura reconheceu a importância da tradição taurina em Portugal, ao criar, por despacho, a Secção de Tauromaquia (ST), que integrará o Conselho Nacional de Cultura (CNC). Esta medida contraria as pretensões dos grupos ditos «animalistas», que se manifestaram contra a presença da tauromaquia no CNC, através de diversas petições. Por sua vez, os defensores da Festa reagiram com petições de sinal contrário. O Diário da República decidiu a questão, ao publicar, na passada segunda-feira, o Despacho nº 3254/2010.
Segundo o diploma, «é fundamental que existam instrumentos que contribuam, no âmbito das políticas públicas, para a normal e digna realização dos espectáculos tauromáquicos, preservando a sua integridade e garantindo o bom relacionamento entre os vários agentes», sem esquecer «a salvaguarda da segurança» desses mesmos agentes.
Segundo o diploma, «é fundamental que existam instrumentos que contribuam, no âmbito das políticas públicas, para a normal e digna realização dos espectáculos tauromáquicos, preservando a sua integridade e garantindo o bom relacionamento entre os vários agentes», sem esquecer «a salvaguarda da segurança» desses mesmos agentes.
Para tal, é criada a ST, à qual cabe apoiar o titular da pasta da Cultura «no desenvolvimento das linhas de política cultural para o sector da tauromaquia»; acompanhar e fazer o balanço da temporada tauromáquica, «propondo as medidas necessárias ao seu bom desenvolvimento e à correcção de desvios»; apresentar, debater e emitir recomendações para adequar a «actividade tauromáquica às necessidades do sector»; apreciar e debater «propostas legislativas ou regulamentares» provenientes do ministro da Cultura»; contribuir para o diálogo entre os agentes do sector e propor medidas que contribuam «para uniformizar práticas e comportamentos que disciplinem e dignifiquem a actividade tauromáquica.»
Compõem a ST, além do inspector-geral das Actividades Culturais, que a ela preside, os directores-gerais das Artes, de Veterinária e da Saúde, um representante da Associação Nacional de Municípios, do sindicato dos toureiros, de associações de forcados, criadores de toiros, empresários e directores de corrida, e ainda três individualidades de reconhecido mérito no campo da tauromaquia. A ST reunirá de acordo com a periodicidade definida no seu regulamento interno ou quando convocada pelo ministro da Cultura.
Por sua vez, o CNC é um orgão de consulta do Ministério da Cultura, instituído em 2006. Compete-lhe emitir pareceres e recomendações sobre questões de política cultural e propor medidas que julgue necessárias à prossecução desta.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
«A Severa» e «Sangue Toureiro», dois marcos na história do cinema português
Quem se debruçar sobre a história do cinema português não deixará de constatar dois dados curiosos: o primeiro filme sonoro e a primeira longa metragem a cores produzida em Portugal têm cunho taurino. Falamos de «A Severa» (1931) e «Sangue Toureiro» (1958). Realizado por Leitão de Barros, a partir da obra homónima de Júlio Dantas, «A Severa» foi o primeiro «fonofilme» português. A película inspira-se nos amores da famosa fadista Maria Severa Onofriana com o conde de Vimioso, D. Francisco de Paula Portugal e Castro, que foi cavaleiro tauromáquico de renome. Para não ferir susceptibilidades, Júlio Dantas alterou a identidade do apaixonado da fadista cigana, que passou de Vimioso para Marialva. O papel de Severa é representado por Dina Teresa e o de D. João, conde de Marialva, pelo cavaleiro António Luís Lopes. Por sua vez, «Sangue Toureiro» levou às salas de cinema portuguesas a novidade da cor. O matador de toiros Diamantino Vizeu encarna a personagem de Eduardo, filho de um rico lavrador ribatejano. Por se recusar a ser cavaleiro tauromáquico, Eduardo parte para Lisboa, na companhia da fadista Maria da Graça (Amália Rodrigues). O paralelo entre a trama do argumento, assinado por Patrício Álvares, pai do cronista e antigo forcado Chaubet, e o ambiente taurino português desse tempo, caracterizado pela supremacia do toureio a pé, são evidentes. «Sangue Toureiro» foi realizado por Henrique Fraga e estreou no cinema Condes, em 7 de Março de 1958.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Recordar Redol
«Ah é verdade! Estou agora aficionado da festa de toiros... Aficionado é como quem diz; os toiros agora doem-me. São coisas do coração, calcula tu, quando há gente a quem a corrida de toiros horroriza pela mesma razão irracional. Doem-me os toiros e não ando lá, embora vá às arenas de Espanha sangue meu.» Assim escrevia Alves Redol (1911-1969), na edição de Julho de 1960 da revista «Almanaque», num extenso artigo em forma de carta, intitulado «Sombra e Sangue». O destinatário da «carta» é Federico García Lorca, o poeta das suas «dores maiores». Embora sabendo que Federico não poderia ler a missiva -foi fuzilado em 1936, nos primórdios da Guerra Civil espanhola- o escritor português conta-lhe o que o levou a Sevilha, num dia da Feira de Abril de 1960: «um toureiro que é de Vila Franca e se chama José Júlio».
Como bom ribatejano, Redol era aficionado. «Brinquei aos toiros quando era menino. Fui cavaleiro por causa de um casaco de veludo lavrado que minha mãe me fez. Nenhum outro rapaz da minha rua se parecia assim tanto com um cavaleiro. Escarranchava-me num pau com uma cabeça de cavalo enfiada na ponta, fazia as cortesias com grande dignidade, e arranjei certa arte, e algum desembaraço, a cravar farpas em canastras de sardinha». Depois o escritor cresceu, esteve «para entrar numa corrida de beneficência como andarilho, fiquei-me por aficionado, o que esmaeceu em mim com as andanças da vida. Uma vez por outra ateava-se a labareda e lá ia a uma tourada, confesso que sem lamúria pelos 'pobres animais', talvez porque no Ribatejo a gente sabe desde menino o que é um toiro. E há coisas que o berço dá e só a tumba as leva.»
Porque a «labareda» se lhe ateou, mas também porque na Maestranza iria estar «sangue» seu, o autor de «Gaibéus» acompanhou José Júlio a Sevilha, para o ver lidar toiros de Cobaleda, ao lado de António Ordoñez e Manolo Vázquez, na tarde de 27 de Abril de 1960.
Eram fortes os laços que ligavam o matador vilafranquense e Alves Redol. Orfão de pai aos quatro anos, José Júlio foi recolhido pela família do escritor, que o apoiou no seu sonho de ser toureiro. Agora, José Júlio, «sobrinho neto daquele Venâncio que pegou toiros, e filho do Júlio Antunes», pisava o albero de Sevilha, num cartel de figuras. Redol tinha que ver e narrar a gesta.
Porém, o coração não o autorizou a cruzar os umbrais da Maestranza. Tolhido pela angústia, Redol fica «cá fora com os pobres que não têm pesetas para ir aos toiros e os vendedores de tudo que por ali aparecem.» É da rua que imagina José Júlio no pátio de quadrilhas, vestido de azul-celeste e oiro, «de boca um tanto seca, com os seus olhos verdes um pouco velados pela responsabilidade da competição.» Mas o escritor não aguenta a espera. Atravessa a avenida e vai debruçar-se sobre o Guadalquivir, em cujas águas 'vê' José Júlio abrir «o seu capote de percal para um quite.»
O espectáculo prossegue: «O Zé já agarrou num par de bandarilhas; pôs-se a ver-lhe o bicos. Sevilha sabe como ele bandarilha, já o viu, já lhe deu triunfos, e pede música.» Mais à frente: «Está já com a muleta na mão. Aplausos, olés, silêncio. E uma ovação frenética. Deve ter-se cingido, num misto de festa e drama que ele tão bem sabe imprimir ao que faz.» De súbito, uma ambulância. «Sí, José Júlio, el portugués... Herido! (...) Ferido como?!... Não pode ser.»
Era verdade. Ao terceiro passe, o cobaleda colhera José Júlio, «empitonou-o por uma perna, junto ao joelho, e o matador ficou na mesma, sem drama, não teatralizando como muitos que dramatizam sustos». À noite, à cabeceira do ferido, Redol troca impressões com ele. «Era um toiro difícil (...) Difícil e baixel... Devias tê-lo despachado. -Os toiros, respondeu, encarando-me, não são para despachar mas para tourear. Há que parar-lhes na frente...»
Meditando na resposta, Redol vai até à janela. Contempla Sevilha que resplandece com as luzes da feira. E vê a sombra de Lorca entre um grupo de ciganos que segue um tocador de viola. «Que fariam os ciganos com o sangue de um toureiro?!»
Como bom ribatejano, Redol era aficionado. «Brinquei aos toiros quando era menino. Fui cavaleiro por causa de um casaco de veludo lavrado que minha mãe me fez. Nenhum outro rapaz da minha rua se parecia assim tanto com um cavaleiro. Escarranchava-me num pau com uma cabeça de cavalo enfiada na ponta, fazia as cortesias com grande dignidade, e arranjei certa arte, e algum desembaraço, a cravar farpas em canastras de sardinha». Depois o escritor cresceu, esteve «para entrar numa corrida de beneficência como andarilho, fiquei-me por aficionado, o que esmaeceu em mim com as andanças da vida. Uma vez por outra ateava-se a labareda e lá ia a uma tourada, confesso que sem lamúria pelos 'pobres animais', talvez porque no Ribatejo a gente sabe desde menino o que é um toiro. E há coisas que o berço dá e só a tumba as leva.»
Porque a «labareda» se lhe ateou, mas também porque na Maestranza iria estar «sangue» seu, o autor de «Gaibéus» acompanhou José Júlio a Sevilha, para o ver lidar toiros de Cobaleda, ao lado de António Ordoñez e Manolo Vázquez, na tarde de 27 de Abril de 1960.
Eram fortes os laços que ligavam o matador vilafranquense e Alves Redol. Orfão de pai aos quatro anos, José Júlio foi recolhido pela família do escritor, que o apoiou no seu sonho de ser toureiro. Agora, José Júlio, «sobrinho neto daquele Venâncio que pegou toiros, e filho do Júlio Antunes», pisava o albero de Sevilha, num cartel de figuras. Redol tinha que ver e narrar a gesta.
Porém, o coração não o autorizou a cruzar os umbrais da Maestranza. Tolhido pela angústia, Redol fica «cá fora com os pobres que não têm pesetas para ir aos toiros e os vendedores de tudo que por ali aparecem.» É da rua que imagina José Júlio no pátio de quadrilhas, vestido de azul-celeste e oiro, «de boca um tanto seca, com os seus olhos verdes um pouco velados pela responsabilidade da competição.» Mas o escritor não aguenta a espera. Atravessa a avenida e vai debruçar-se sobre o Guadalquivir, em cujas águas 'vê' José Júlio abrir «o seu capote de percal para um quite.»
O espectáculo prossegue: «O Zé já agarrou num par de bandarilhas; pôs-se a ver-lhe o bicos. Sevilha sabe como ele bandarilha, já o viu, já lhe deu triunfos, e pede música.» Mais à frente: «Está já com a muleta na mão. Aplausos, olés, silêncio. E uma ovação frenética. Deve ter-se cingido, num misto de festa e drama que ele tão bem sabe imprimir ao que faz.» De súbito, uma ambulância. «Sí, José Júlio, el portugués... Herido! (...) Ferido como?!... Não pode ser.»
Era verdade. Ao terceiro passe, o cobaleda colhera José Júlio, «empitonou-o por uma perna, junto ao joelho, e o matador ficou na mesma, sem drama, não teatralizando como muitos que dramatizam sustos». À noite, à cabeceira do ferido, Redol troca impressões com ele. «Era um toiro difícil (...) Difícil e baixel... Devias tê-lo despachado. -Os toiros, respondeu, encarando-me, não são para despachar mas para tourear. Há que parar-lhes na frente...»
Meditando na resposta, Redol vai até à janela. Contempla Sevilha que resplandece com as luzes da feira. E vê a sombra de Lorca entre um grupo de ciganos que segue um tocador de viola. «Que fariam os ciganos com o sangue de um toureiro?!»
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Os touros ao serviço da diplomacia
Até aos anos 70 do século passado, o programa das visitas de governantes estrangeiros a Portugal incluía quase sempre a presença numa corrida de touros. O hábito vinha, pelo menos, desde os tempos de D. Carlos I. Empenhado em garantir o bom relacionamento do nosso país com as potências europeias da época, D. Carlos convidou os reis Eduardo VII de Inglaterra e Afonso XIII de Espanha, o kaiser Guilherme II da Alemanha e o Presidente da República Francesa, Emile Loubet, a deslocarem-se a Portugal, o que aconteceu entre 1903 e 1904. Em homenagem aos ilustres visitantes, organizaram-se corridas no Campo Pequeno, com a pompa das touradas de outras eras.
A visita de Eduardo VII teve uma importância especial, pela necessidade de sarar a ferida aberta pelo Ultimato britânico de 1890. Em honra do monarca realizou-se em Lisboa, em 6 de Abril de 1903, uma corrida em que foram lidados dez touros do criador coruchense Manuel dos Santos Correia Branco. Actuaram os cavaleiros José Bento de Araújo, Fernando de Oliveira, Manuel Casimiro, Joaquim Alves, Francisco Serra e Eduardo de Macedo, um nutrido conjunto de bandarilheiros e dois grupos de forcados.
A visita de Eduardo VII teve uma importância especial, pela necessidade de sarar a ferida aberta pelo Ultimato britânico de 1890. Em honra do monarca realizou-se em Lisboa, em 6 de Abril de 1903, uma corrida em que foram lidados dez touros do criador coruchense Manuel dos Santos Correia Branco. Actuaram os cavaleiros José Bento de Araújo, Fernando de Oliveira, Manuel Casimiro, Joaquim Alves, Francisco Serra e Eduardo de Macedo, um nutrido conjunto de bandarilheiros e dois grupos de forcados.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Manuel dos Santos nasceu há 85 anos
Assinala-se hoje, 11 de Fevereiro, o 85º aniversário do nascimento daquele que foi o mais popular matador de touros português e figura de destaque no panorama taurino mundial da década de 1950: Manuel dos Santos.
Originário de uma família da Golegã com fortes tradições tauromáquicas -um avô e dois tios tinham sido bandarilheiros-, cedo manifestou vontade de se afirmar nas arenas. Depois de aprender os rudimentos do toureio com Patrício Cecílio, antigo toureiro amador da Golegã, Manuel dos Santos principiou a sua carreira como bandarilheiro, em 1943. Três anos depois decide enveredar pela senda de novilheiro, fazendo a sua apresentação pública em Espanha a 26 de Junho de 1947, em Badajoz. As três orelhas e o rabo que cortou nessa corrida são o passaporte para uma série de seis actuações na Monumental de Barcelona, que o projectam com força no país vizinho.
A 14 de Dezembro de 1948 toma a sua primeira alternativa na praça El Toreo, na Cidade do México, mas sofre uma gravíssima colhida, que o coloca entre a vida e a morte. Recupera, renuncia à alternativa mexicana e vem a doutorar-se em Sevilha, a 15 de Agosto de 1948, apadrinhado por Chicuelo. Num crescendo de êxitos, Manuel dos Santos é o líder do escalafón da temporada de 1950, com 93 corridas toureadas, em Portugal, Espanha, França, México, Venezuela e Colômbia. Corta nessa temporada 46 orelhas e nove rabos.
Em Portugal, esgota praças e compete acesamente com Diamantino Vizeu. O país divide-se em manuelistas e diamantinistas, naquela que foi a época de ouro do toureio a pé entre nós. Manuel dos Santos foi também imensamente popular no México, mercê dos grandiosos triunfos que ali alcançou. A 29 de Janeiro de 1950, na Monumental do México, conquista a prestigiosa «Rosa de Ouro de Guadalupe», em competição com Luís Castro El Soldado e Silvério Pérez. Pelo ruedo asteca passeou nessa tarde Manuel dos Santos um total de quatro orelhas e dois rabos. A 1 de Abril do ano seguinte, toureia três corridas num só dia, mano-a-mano com Carlos Arruza, nas praças de Morélia, Cidade do México e Acapulco.
Atingido por sérias lesões nos joelhos, Manuel dos Santos despede-se pela primeira vez do toureio em 1953, numa histórica corrida realizada no Campo Pequeno. Reaparece em 1960 e, entre triunfos e colhidas, mantem-se no activo até 1963. Depois de abandonar as arenas dedica-se de alma e coração ao empresariado taurino, explorando o Campo Pequeno e um importante conjunto de praças portuguesas. Como empresário, é recordado como o mais dinâmico e aficionado que Portugal conheceu. Vítima de acidente de viação, o Lobo Português, como os mexicanos o baptizaram, vem a morrer em 17 de Fevereiro de 1973.
Originário de uma família da Golegã com fortes tradições tauromáquicas -um avô e dois tios tinham sido bandarilheiros-, cedo manifestou vontade de se afirmar nas arenas. Depois de aprender os rudimentos do toureio com Patrício Cecílio, antigo toureiro amador da Golegã, Manuel dos Santos principiou a sua carreira como bandarilheiro, em 1943. Três anos depois decide enveredar pela senda de novilheiro, fazendo a sua apresentação pública em Espanha a 26 de Junho de 1947, em Badajoz. As três orelhas e o rabo que cortou nessa corrida são o passaporte para uma série de seis actuações na Monumental de Barcelona, que o projectam com força no país vizinho.
A 14 de Dezembro de 1948 toma a sua primeira alternativa na praça El Toreo, na Cidade do México, mas sofre uma gravíssima colhida, que o coloca entre a vida e a morte. Recupera, renuncia à alternativa mexicana e vem a doutorar-se em Sevilha, a 15 de Agosto de 1948, apadrinhado por Chicuelo. Num crescendo de êxitos, Manuel dos Santos é o líder do escalafón da temporada de 1950, com 93 corridas toureadas, em Portugal, Espanha, França, México, Venezuela e Colômbia. Corta nessa temporada 46 orelhas e nove rabos.
Em Portugal, esgota praças e compete acesamente com Diamantino Vizeu. O país divide-se em manuelistas e diamantinistas, naquela que foi a época de ouro do toureio a pé entre nós. Manuel dos Santos foi também imensamente popular no México, mercê dos grandiosos triunfos que ali alcançou. A 29 de Janeiro de 1950, na Monumental do México, conquista a prestigiosa «Rosa de Ouro de Guadalupe», em competição com Luís Castro El Soldado e Silvério Pérez. Pelo ruedo asteca passeou nessa tarde Manuel dos Santos um total de quatro orelhas e dois rabos. A 1 de Abril do ano seguinte, toureia três corridas num só dia, mano-a-mano com Carlos Arruza, nas praças de Morélia, Cidade do México e Acapulco.
Atingido por sérias lesões nos joelhos, Manuel dos Santos despede-se pela primeira vez do toureio em 1953, numa histórica corrida realizada no Campo Pequeno. Reaparece em 1960 e, entre triunfos e colhidas, mantem-se no activo até 1963. Depois de abandonar as arenas dedica-se de alma e coração ao empresariado taurino, explorando o Campo Pequeno e um importante conjunto de praças portuguesas. Como empresário, é recordado como o mais dinâmico e aficionado que Portugal conheceu. Vítima de acidente de viação, o Lobo Português, como os mexicanos o baptizaram, vem a morrer em 17 de Fevereiro de 1973.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Afinal, em Évora há burladeros
Quem disse que não existiam burladeros na praça de Évora? Existem sim senhor, só que nunca (subentenda-se, nos últimos anos) foram utilizados. A garantia é dada por Carlos Pegado, empresário daquela praça alentejana, em entrevista ao blogue Naturales.
E como explica Pegado que os burladeros estejam agora a ganhar teias de aranha, apesar de Évora ter uma praça por onde passaram grandes nomes da arte de Montes? Simples: «prende-se com o facto de que a realidade se alterou muito, alguns anos antes de eu ser empresário. A corrida apeada como se faz no nosso país resulta, para os aficionados, num espectáculo amputado e de pouca emoção, onde raramente conseguimos ver um pouco de bom toureio». Como espectáculo, também não é rentável para as empresas, pois «não há figuras em Portugal e as figuras de Espanha não atraem público às nossas praças, nomeadamente no Alentejo, onde devido à proximidade com Espanha os aficionados preferem deslocar-se e ver a corrida integral, que não é possível realizar no nosso país». E conclui Pegado: «Será necessário fazer um trabalho de base para que se volte a criar o gosto e o hábito no público português.»
Carlos Pegado tem razão quando qualifica o toureio a pé em Portugal como «espectáculo amputado e de pouca emoção». Além disso, diz o «empresário-forcado», «não há figuras em Portugal e as figuras de Espanha não atraem público às nossas praças». (Pegado esquece-se do agrado com que recentemente foram vistos, no Campo Pequeno, nomes como El Cid, Morante ou Perera, mesmo com reses amputadas).
Mas pensareis vós, leitores, que Pegado está disposto a mexer um dedo para alterar a situação, pois conduzir uma empresa não deve servir só para embolsar umas maquias, mas também fazer alguma coisinha pelo sector em que trabalhamos. Qual quê: quem gosta de toureio a pé, que vá vê-lo a Espanha, que, de resto, até fica pertinho. O argumento está ao nível do que responderiam os mandões do tempo da outra senhora, em que havia, entre outras maravilhas, censura ao cinema: gostam de ver filmes que em Portugal são proibidos? Metam-se no comboio ou no avião e vão vê-los a Espanha ou a França! Não queriam mais nada...
O empresário de Évora dá-se até ao luxo de, como quem descobre a pólvora, salientar que «para que se volte a criar o gosto [pelo toureio a pé] no público português», é «necessário um trabalho de base». Com a ajuda da praça de Évora, dando espectáculos de oportunidade a jovens bezerristas ou novilheiros, por exemplo? Que é lá isso!...Évora, é bom lembrar, é a capital do forcado!
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Passo a citar (IX)
«No meu conceito, o toiro sai à praça para ser lidado, e o mais importante é dar-lhe a lide adequada. Não vou preocupado em fazer 'números' aos toiros, vou preocupado em tourear o toiro bem toureado, no sítio adequado, nos terrenos certos.»
(António Ribeiro Telles, Novo Burladero, Fevereiro de 2010)
(António Ribeiro Telles, Novo Burladero, Fevereiro de 2010)
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
«Los Toros» de Michael Crouser
Uma das mais recentes «jóias» fotográficas de tema taurino é o livro «Los Toros», do americano Michael Crouser (Minneapolis, 1962). Depois de tirar um curso de fotografia no seu país e de trabalhar com outros fotógrafos, Michael Crouser fez uma viagem a Espanha, onde descobriu as corridas de toiros. Entusiasmado pelo tema, começou a fotografar espectáculos taurinos em praças espanholas, francesas, mexicanas e sul-americanas. Dezassete anos e seiscentos rolos depois, estava em condições de produzir um sumptuoso álbum de fotografias a preto e branco, prefaciado pelo escritor Mário Vargas Llosa. Um caso de paixão por «um espectáculo cultural - estranho e emotivo», nas palavras de Michael Crouser.
Assinar:
Postagens (Atom)


















