terça-feira, 9 de março de 2010

Praças de touros de Lisboa (I)

Antes do século XVIII, em Lisboa como noutras cidades da Península Ibérica, dificilmente se pode falar na existência de praças de touros como hoje as conhecemos. Isto é, imóveis com carácter permanente, construídos com o objectivo de neles se realizarem regularmente espectáculos tauromáquicos. Até esse período, os festejos taurinos realizados em Lisboa tinham lugar em praças públicas, como o Rossio e o Terreiro do Paço, ou em tauródromos de pequena dimensão, construídas por reis e nobres para seu recreio pessoal. Foi o caso da praça de Xabregas, mandada edificar por D. Sebastião, por volta de 1575. No século XVII, o da dominação filipina e das guerras da Restauração, o figurino não mudou substancialmente. À falta de recintos mais adequados, as funções tauromáquicas mais importantes, como as touradas em honra da realeza, efectuavam-se em praças públicas.
Mas chega o século XVIII - e com ele uma nova concepção dos espectáculos públicos. Para acomodar um público gradualmente mais exigente, erguem-se praças de touros na Junqueira, em 1738, no Largo da Anunciada, em 1739, no Campo Pequeno, em 1740, e na Estrela, em 1763. Esta última, situada no Casal da Estrela, um arrabalde lisboeta onde existiam hortas, terá sido uma das mais notáveis. A praça tinha forma oitavada e estava adornada com estátuas.
A crer numa portaria de 18 de Maio de 1763, a praça da Estrela foi edificada a petição das freiras clarissas do mosteiro de Sacavém, para a realização de uma série de seis espectáculos tauromáquicos, que lhes permitissem terminar a capela do convento. Destes espectáculos não há notícias. Há, isso sim, de uma corrida ali realizada, também em 1763, organizada por Francisco de Matos Pereira Souto, criado do infante D. Pedro, descrita na «Nova relação e verdadeira notícia exposta ao público, das magníficas e vistosas festas de toiros que se hão-de celebrar no sítio do casal da Estrela...».

Gallito em Aveiro

José Gomez Ortega (1895-1920), também conhecido como Gallito ou Joselito, foi para muitos o maior toureiro de todos os tempos. Com Juan Belmonte, Gallito protagonizou a Idade de Ouro do toureio, que terminou na arena de Talavera de la Reina, quando o toiro Bailador o colheu mortalmente.
Joselito iniciou a sua carreira como bezerrista, integrado na quadrilha infantil dos Niños Sevillanos, na qual fazia duo com José Garate Limeño. Os Niños Sevillanos actuaram em diversas praças portuguesas na primeira década do século passado, com assinalável êxito. O mais novo dos Gallos, com os seus 13 ou 14 anos, já estão dava mostras do genial toureiro que viria a ser.
A morte de Gallito comoveu todo o planeta taurino. A revista «Ilustração Portuguesa», na sua edição de 31 de Maio de 1920, recordou a passagem dos Niños Sevillanos por Aveiro, onde participaram numa corrida organizada pelo Clube Mário Duarte. Na imagem, possivelmente datada de 1908, vemos os jovens Joselito e Limeño, ao lado dum bandarilheiro.
O Clube Mário Duarte, fundado pelo célebre desportista aveirense do mesmo nome, caracterizava-se por ter uma secção de tauromaquia, a par de secções de futebol, esgrima, remo e ciclismo. O próprio Mário Duarte (1869-1939), avô do poeta e político Manuel Alegre, distinguiu-se como toureiro amador, tendo sido bandarilheiro e cavaleiro.

quinta-feira, 4 de março de 2010

A propósito do debate na Catalunha...

                                              

«Per El Yiyo»: elegia para um toureiro

As obras de tema tauromáquico escasseiam no mercado português. A produção nacional é diminuta e nem sempre o que se publica chega às bancas, por dificuldades de distribuição ou outras. Quanto às obras editadas em países como a França e a Espanha, que são inúmeras, não conseguem vencer os diques do desinteresse dos nossos livreiros. É certo que a Internet está aí, mas nem toda a gente se ajeita a encomendar livros por essa via.
De vez em quando, porém, o mercado reserva-nos surpresas. É o caso de «Per El Yiyo», do poeta francês Bernard Manciet, editado em 2002 pela Campo das Letras. O livro é uma elegia ao toureiro José Cubero El Yiyo, tragicamente morto na praça de Colmenar Viejo, em 1985. Formado por um único poema, dividido em quatro partes, a obra tem uma estrutura dramática, com um conjunto de personagens (o Touro, a Criança, o Primogénito, o Morto) e, à maneira da tragédia grega, um coro.
O seu autor, Bernard Manciet (1923-2005), nasceu em Sabres, cidade do departamento de Landes, no sudoente da França. Grande parte da sua obra foi escrita em gascão, a língua original da região da Aquitânia, onde o poeta nasceu.
De «Per El Yiyo»: «O Touro: Afagas-me com a tua voz ácida e dourada/é como afagar o infortúnio/antigo e o tormento dos mortos/que transporto sobre o coração/mas tem cuidado porque sou avesso a carícias/depois de tantos séculos de amargura/o nosso deus das profundezas não gosta do roçar da/ felicidade/cuidado que não destrua eu o dia» (Tradução de José Nogueira Gil)

quarta-feira, 3 de março de 2010

Quando o título engana

Nasceu em 3 de Maio de 1836 e intitulava-se «O Toureiro». Se o título e a gravura do cabeçalho correspondessem ao conteúdo, poderia ser considerado o primeiro periódico taurino português. Contudo, as aparências iludem: «O Toureiro» não foi um jornal tauromáquico, mas sim uma folha de combate político, de simpatias miguelistas.
«O Toureiro» surge em pleno regime cartista, dois anos após o fim da Guerra Civil e do triunfo do liberalismo. Reinava então D. Maria II, à luz da Carta Constitucional, e D. Miguel partira para o exílio. Porém, as feridas abertas pela guerra não estavam ainda completamente cicatrizadas, e as divisões entre liberais e absolutistas, ou miguelistas, ainda se faziam notar na sociedade portuguesa. Partidário destes últimos, «O Toureiro» propõe-se «farpear os touros da Travessa dos Ladrões» e um tal «Barão dos cofres roubados», «façanhudo devorador». Os redactores d'«O Toureiro» são anónimos, como convinha a quem desafiava a ordem estabelecida. Sabe-se apenas que era impresso na Tipografia Morandiana, na Rua dos Calafates, 134, Lisboa.