sábado, 27 de fevereiro de 2010

Fedération des Sociétés Taurines de France faz 100 anos


A Fedération des Sociétés Taurines de France (FSTF), a mais importante associação de clubes taurinos francesa, celebra dentro de dias o seu 100º aniversário. Tudo começou a 6 de Março de 1910, quando Monsieur Cluzel, presidente do clube «La Montera», de Montpellier, convocou os dirigentes de 26 associações taurinas francesas, com o objectivo de constituirem um orgão federativo que lutasse pelo reconhecimento legal das corridas de touros no país.
O espectáculo taurino atravessava então em França um período de indefinição legal, pois certas autoridades consideravam que as corridas estavam abrangidas pela lei que proibia os maus-tratos a animais, a chamada Lei Grammont, de 1850. Se em certas regiões a administração consentia as corridas, noutras não eram permitidas. Por fim, em 1951, a assembleia nacional francesa decidiu que a Lei Grammont não se aplicava aos espectáculos tauromáquicos realizados em localidades com uma tradição taurina ininterrupta. Esta alteração foi sugerida aos deputados pelo então presidente da FSTF.
Outro marco na história da FSTS foi o impulso dado à criação da Union des Villes Taurines Françaises, em 1966, e ao Regulamento Taurino francês. Actualmente, conta com um total de 70 clubes federados, de todas as regiões francesas e de Bruxelas, o que atesta a vitalidade da Festa na pátria de Sebastián Castella. Os princípios da FSTF, hoje como ontem, são a luta pela manutenção da ética nas corridas, pela integridade do toiro e pela defesa dos interesses dos aficionados.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Gosta de corridas de toiros? Saiba defendê-las. Não gosta? Saiba compreendê-las


É esta a epígrafe do último livro de Francis Wolff, «50 Razones para Defender las Corridas de Toros», distribuído gratuitamente com a edição de ontem, 24 de Fevereiro, da revista espanhola «6 Toros 6»,  à venda em muitos pontos do nosso país. Francis Wolff, recorde-se, é um filósofo francês - professor catedrático na Universidade de Paris- que se tem distinguido na reflexão sobre o fenómeno taurino e na sua defesa com base em pressupostos filosóficos.
Nas suas 90 páginas, a obra recolhe, de forma «sintética e acessível», 50 argumentos que contrariam as teses dos alegados «defensores» dos animais. Por exemplo, à questão «as corridas de toiros são tortura?», Wolff responde: «as corridas não têm como objectivo fazer sofrer um animal»; «as corridas não teriam nenhum sentido sem a luta do toiro»; «as corridas não teriam nenhum sentido sem o risco de morte do toureiro»; «se um toiro fosse torturado fugiria»; «falar de tortura não é confundir o homem com o toiro?»
Seguem-se muitas outras respostas a interrogações como o sofrimento do toiro; a morte do toiro; os toiros e o meio ambiente; a corrida como espectáculo; a festa de toiros na cultura e na história; a corrida e os valores humanistas; a festa de toiros é criadora de inestimáveis valores estéticos e, por último, os perigos do animalismo.
Há uma referência a Portugal, quando se pergunta se seria possível não matar o touro em público, como prescreve a lei portuguesa. A morte pública, salienta o filósofo, é um «fim necessário da cerimónia sacrificial» que o toureio constitui. Uma morte «ocultada» seria mais cruel para o animal. «Um toiro que sai vivo do ruedo terá que esperar várias horas antes de ser levado para o matadouro (...) A única beneficiada desta solução seria a hipocrisia: o que não se vê não existe».
«Quem são os bárbaros?», pergunta Francis Wolff em jeito de conclusão. Os aficionados ou «os antitaurinos que, em nome do (suposto) bem-estar dos animais, que consideram superiores aos seres humanos, pretendem matar uma forma de arte e criação arreigada na história e inserida na nossa modernidade»?
«50 Razones para Defender las Corridas de Toros», que merece tradução urgente para português, é um inestimável breviário da filosofia da Festa e um precioso instrumento de defesa contra os que a pretendem agredir.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Tauromaquia no Conselho Nacional de Cultura


O Ministério da Cultura reconheceu a importância da tradição taurina em Portugal, ao criar, por despacho, a Secção de Tauromaquia (ST), que integrará o Conselho Nacional de Cultura (CNC). Esta medida contraria as pretensões dos grupos ditos «animalistas», que se manifestaram contra a presença da tauromaquia no CNC, através de diversas petições. Por sua vez, os defensores da Festa reagiram com petições de sinal contrário. O Diário da República decidiu a questão, ao publicar, na passada segunda-feira, o Despacho nº 3254/2010.
Segundo o diploma, «é fundamental que existam instrumentos que contribuam, no âmbito das políticas públicas, para a normal e digna realização dos espectáculos tauromáquicos, preservando a sua integridade e garantindo o bom relacionamento entre os vários agentes», sem esquecer «a salvaguarda da segurança» desses mesmos agentes. 
Para tal, é criada a ST, à qual cabe apoiar o titular da pasta da Cultura «no desenvolvimento das linhas de política cultural para o sector da tauromaquia»; acompanhar e fazer o balanço da temporada tauromáquica, «propondo as medidas necessárias ao seu bom desenvolvimento e à correcção de desvios»; apresentar, debater e emitir recomendações para adequar a «actividade tauromáquica às necessidades do sector»; apreciar e debater «propostas legislativas ou regulamentares» provenientes do ministro da Cultura»; contribuir para o diálogo entre os agentes do sector e propor medidas que contribuam «para uniformizar práticas e comportamentos que disciplinem e dignifiquem a actividade tauromáquica.»
Compõem a ST, além do inspector-geral das Actividades Culturais, que a ela preside, os directores-gerais das Artes, de Veterinária e da Saúde, um representante da Associação Nacional de Municípios, do sindicato dos toureiros, de associações de forcados, criadores de toiros, empresários e directores de corrida, e ainda três individualidades de reconhecido mérito no campo da tauromaquia. A ST reunirá de acordo com a periodicidade definida no seu regulamento interno ou quando convocada pelo ministro da Cultura.
Por sua vez, o CNC é um orgão de consulta do Ministério da Cultura, instituído em 2006. Compete-lhe emitir pareceres e recomendações sobre questões de política cultural e propor medidas que julgue necessárias à prossecução desta.                                                                                 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

«A Severa» e «Sangue Toureiro», dois marcos na história do cinema português

Quem se debruçar sobre a história do cinema português não deixará de constatar dois dados curiosos: o primeiro filme sonoro e a primeira longa metragem a cores produzida em Portugal têm cunho taurino. Falamos de «A Severa» (1931) e «Sangue Toureiro» (1958). Realizado por Leitão de Barros, a partir da obra homónima de Júlio Dantas, «A Severa» foi o primeiro «fonofilme» português. A película inspira-se nos amores da famosa fadista Maria Severa Onofriana com o conde de Vimioso, D. Francisco de Paula Portugal e Castro, que foi cavaleiro tauromáquico de renome. Para não ferir susceptibilidades, Júlio Dantas alterou a identidade do apaixonado da fadista cigana, que passou de Vimioso para Marialva. O papel de Severa é representado por Dina Teresa e o de D. João, conde de Marialva, pelo cavaleiro António Luís Lopes.
Por sua vez, «Sangue Toureiro» levou às salas de cinema portuguesas a novidade da cor. O matador de toiros Diamantino Vizeu encarna a personagem de Eduardo, filho de um rico lavrador ribatejano. Por se recusar a ser cavaleiro tauromáquico, Eduardo parte para Lisboa, na companhia da fadista Maria da Graça (Amália Rodrigues). O paralelo entre a trama do argumento, assinado por Patrício Álvares, pai do cronista e antigo forcado Chaubet, e o ambiente taurino português desse tempo, caracterizado pela supremacia do toureio a pé, são evidentes. «Sangue Toureiro» foi realizado por Henrique Fraga e estreou no cinema Condes, em 7 de Março de 1958.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Recordar Redol

«Ah é verdade! Estou agora aficionado da festa de toiros... Aficionado é como quem diz; os toiros agora doem-me. São coisas do coração, calcula tu, quando há gente a quem a corrida de toiros horroriza pela mesma razão irracional. Doem-me os toiros e não ando lá, embora vá às arenas de Espanha sangue meu.» Assim escrevia Alves Redol (1911-1969), na edição de Julho de 1960 da revista «Almanaque», num extenso artigo em forma de carta, intitulado «Sombra e Sangue». O destinatário da «carta» é Federico García Lorca, o poeta das suas «dores maiores». Embora sabendo que Federico não poderia ler a missiva -foi fuzilado em 1936, nos primórdios da Guerra Civil espanhola- o escritor português conta-lhe o que o levou a Sevilha, num dia da Feira de Abril de 1960: «um toureiro que é de Vila Franca e se chama José Júlio».
Como bom ribatejano, Redol era aficionado. «Brinquei aos toiros quando era menino. Fui cavaleiro por causa de um casaco de veludo lavrado que minha mãe me fez. Nenhum outro rapaz da minha rua se parecia assim tanto com um cavaleiro. Escarranchava-me num pau com uma cabeça de cavalo enfiada na ponta, fazia as cortesias com grande dignidade, e arranjei certa arte, e algum desembaraço, a cravar farpas em canastras de sardinha». Depois o escritor cresceu, esteve «para entrar numa corrida de beneficência como andarilho, fiquei-me por aficionado, o que esmaeceu em mim com as andanças da vida. Uma vez por outra ateava-se a labareda e lá ia a uma tourada, confesso que sem lamúria pelos 'pobres animais', talvez porque no Ribatejo a gente sabe desde menino o que é um toiro. E há coisas que o berço dá e só a tumba as leva.»
Porque a «labareda» se lhe ateou, mas também porque na Maestranza iria estar «sangue» seu, o autor de «Gaibéus» acompanhou José Júlio a Sevilha, para o ver lidar toiros de Cobaleda, ao lado de António Ordoñez e Manolo Vázquez, na tarde de 27 de Abril de 1960.
Eram fortes os laços que ligavam o matador vilafranquense e Alves Redol. Orfão de pai aos quatro anos, José Júlio foi recolhido pela família do escritor, que o apoiou no seu sonho de ser toureiro. Agora, José Júlio, «sobrinho neto daquele Venâncio que pegou toiros, e filho do Júlio Antunes», pisava o albero de Sevilha, num cartel de figuras. Redol tinha que ver e narrar a gesta.
Porém, o coração não o autorizou a cruzar os umbrais da Maestranza. Tolhido pela angústia, Redol fica «cá fora com os pobres que não têm pesetas para ir aos toiros e os vendedores de tudo que por ali aparecem.» É da rua que imagina José Júlio no pátio de quadrilhas, vestido de azul-celeste e oiro, «de boca um tanto seca, com os seus olhos verdes um pouco velados pela responsabilidade da competição.» Mas o escritor não aguenta a espera. Atravessa a avenida e vai debruçar-se sobre o Guadalquivir, em cujas águas 'vê' José Júlio abrir «o seu capote de percal para um quite.»
O espectáculo prossegue: «O Zé já agarrou num par de bandarilhas; pôs-se a ver-lhe o bicos. Sevilha sabe como ele bandarilha, já o viu, já lhe deu triunfos, e pede música.» Mais à frente: «Está já com a muleta na mão. Aplausos, olés, silêncio. E uma ovação frenética. Deve ter-se cingido, num misto de festa e drama que ele tão bem sabe imprimir ao que faz.» De súbito, uma ambulância. «Sí, José Júlio, el portugués... Herido! (...) Ferido como?!... Não pode ser.»
Era verdade. Ao terceiro passe, o cobaleda colhera José Júlio, «empitonou-o por uma perna, junto ao joelho, e o matador ficou na mesma, sem drama, não teatralizando como muitos que dramatizam sustos». À noite, à cabeceira do ferido, Redol troca impressões com ele. «Era um toiro difícil (...) Difícil e baixel... Devias tê-lo despachado. -Os toiros, respondeu, encarando-me, não são para despachar mas para tourear. Há que parar-lhes na frente...»
Meditando na resposta, Redol vai até à janela. Contempla Sevilha que resplandece com as luzes da feira. E vê a sombra de Lorca entre um grupo de ciganos que segue um tocador de viola. «Que fariam os ciganos com o sangue de um toureiro?!»

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Os touros ao serviço da diplomacia

Até aos anos 70 do século passado, o programa das visitas de governantes estrangeiros a Portugal incluía quase sempre a presença numa corrida de touros. O hábito vinha, pelo menos, desde os tempos de D. Carlos I. Empenhado em garantir o bom relacionamento do nosso país com as potências europeias da época, D. Carlos convidou os reis Eduardo VII de Inglaterra e Afonso XIII de Espanha, o kaiser Guilherme II da Alemanha e o Presidente da República Francesa, Emile Loubet, a deslocarem-se a Portugal, o que aconteceu entre 1903 e 1904. Em homenagem aos ilustres visitantes, organizaram-se corridas no Campo Pequeno, com a pompa das touradas de outras eras.
A visita de Eduardo VII teve uma importância especial, pela necessidade de sarar a ferida aberta pelo Ultimato britânico de 1890. Em honra do monarca realizou-se em Lisboa, em 6 de Abril de 1903, uma corrida em que foram lidados dez touros do criador coruchense Manuel dos Santos Correia Branco. Actuaram os cavaleiros José Bento de Araújo, Fernando de Oliveira, Manuel Casimiro, Joaquim Alves, Francisco Serra e Eduardo de Macedo, um nutrido conjunto de bandarilheiros e dois grupos de forcados.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Manuel dos Santos nasceu há 85 anos

Assinala-se hoje, 11 de Fevereiro, o 85º aniversário do nascimento daquele que foi o mais popular matador de touros português e figura de destaque no panorama taurino mundial da década de 1950: Manuel dos Santos.
Originário de uma família da Golegã com fortes tradições tauromáquicas -um avô e dois tios tinham sido bandarilheiros-, cedo manifestou vontade de se afirmar nas arenas. Depois de aprender os rudimentos do toureio com Patrício Cecílio, antigo toureiro amador da Golegã, Manuel dos Santos principiou a sua carreira como bandarilheiro, em 1943. Três anos depois decide enveredar pela senda de novilheiro, fazendo a sua apresentação pública em Espanha a 26 de Junho de 1947, em Badajoz. As três orelhas e o rabo que cortou nessa corrida são o passaporte para uma série de seis actuações na Monumental de Barcelona, que o projectam com força no país vizinho.
A 14 de Dezembro de 1948 toma a sua primeira alternativa na praça El Toreo, na Cidade do México, mas sofre uma gravíssima colhida, que o coloca entre a vida e a morte. Recupera, renuncia à alternativa mexicana e vem a doutorar-se em Sevilha, a 15 de Agosto de 1948, apadrinhado por Chicuelo. Num crescendo de êxitos, Manuel dos Santos é o líder do escalafón da temporada de 1950, com 93 corridas toureadas, em Portugal, Espanha, França, México, Venezuela e Colômbia. Corta nessa temporada 46 orelhas e nove rabos.
Em Portugal, esgota praças e compete acesamente com Diamantino Vizeu. O país divide-se em manuelistas e diamantinistas, naquela que foi a época de ouro do toureio a pé entre nós. Manuel dos Santos foi também imensamente popular no México, mercê dos grandiosos triunfos que ali alcançou. A 29 de Janeiro de 1950, na Monumental do México, conquista a prestigiosa «Rosa de Ouro de Guadalupe», em competição com Luís Castro El Soldado e Silvério Pérez. Pelo ruedo asteca passeou nessa tarde Manuel dos Santos um total de quatro orelhas e dois rabos. A 1 de Abril do ano seguinte, toureia três corridas num só dia, mano-a-mano com Carlos Arruza, nas praças de Morélia, Cidade do México e Acapulco.
Atingido por sérias lesões nos joelhos, Manuel dos Santos despede-se pela primeira vez do toureio em 1953, numa histórica corrida realizada no Campo Pequeno. Reaparece em 1960 e, entre triunfos e colhidas, mantem-se no activo até 1963. Depois de abandonar as arenas dedica-se de alma e coração ao empresariado taurino, explorando o Campo Pequeno e um importante conjunto de praças portuguesas. Como empresário, é recordado como o mais dinâmico e aficionado que Portugal conheceu. Vítima de acidente de viação, o Lobo Português, como os mexicanos o baptizaram, vem a morrer em 17 de Fevereiro de 1973.