terça-feira, 17 de março de 2009

Juanita Cruz, primeira mulher matadora de touros


Há precisamente 69 anos, doutorava-se na praça mexicana de Fresnillo Juanita Cruz- a primeira mulher a obter a alternativa de matador de touros. Nascida em Madrid, em 1917, começou a tourear em 1932, mas a guerra civil travou-lhe o passo. Radicou-se então na América Latina, onde colheu significativos triunfos. Na posse da alternativa, regressou a Espanha em 1946, para exercer a profissão no seu país. Contudo, uma lei impedia as mulheres de tourearem em solo espanhol, o que truncou irremediavelmente a carreira de Juanita. Ainda como bezerrista, actuou no Campo Pequeno em 11 de Junho de 1933, num festival de variedades taurinas. «A elegante toureira espanhola não teve medo dos garraios e mostrou habilidade nos passes de capote», garantia «O Século».

Rogério e Mário


À esquerda, Rogério Perez, El Terrible Perez, jornalista e crítico taurino; à direita Mário de Sá-Carneiro, poeta; ao centro, Gilberto Rola. A foto, publicada no nº 117/118 da revista «Colóquio/Letras» (Setembro de 1990), data dos primeiros anos do século passado (Sá-Carneiro nasceu em 1890 e suicidou-se em 1916), e mostra que os interesses e as amizades de El Terrible Perez excediam o mundo taurino. No nº 7 da «Contemporânea», revista de artes e letras notável pelo seu grafismo, encontramos um seu «Discurso» num banquete da revista, em que evoca, de passagem, a sua amizade com Sá-Carneiro. Mas Rogério Perez (1890-1979) distinguiu-se sobretudo como crítico de touros, nas colunas do «Diário de Lisboa». E logo aquele «que mais viveu as entranhas do mundo taurino, e mais conhecido se tornou das figuras grandes do seu tempo» (Solilóquio, «Memórias de um bilhete de sol»). Essas figuras foram muitas, desde os Gallos, Rafael e José, a Juan Belmonte, de Gitanillo de Triana a Pepe Luis Vazquez e deste a Manolete. Foi representante em Portugal do rejoneador Antonio Cañero e organizou, em 1933, corridas com touros de morte, no Campo Pequeno. Destacou-se também pelas reportagens que fez em Espanha, antes e durante a guerra civil, ao serviço do «Diário de Lisboa». Rogério Perez reuniu as suas memórias no livro «Meio século a ver touros» (Ed. Marítimo-Colonial, 1945).

domingo, 15 de março de 2009

Touros no Terreiro do Paço, em 1661


Nos tempos da monarquia, não havia entronização, casamento ou baptizado real que não contasse com festas de touros. No século XVII e até mais tarde, à falta de praças de touros, os espectáculos eram celebrados em praças públicas. Existe na Biblioteca Nacional uma curiosa descrição, em verso, das «Festas Reays na Corte de Lisboa», por ocasião do «feliz cazamento dos Reys da Grão Bretanha Carlos, & Catherina». Tratava-se da princesa Catarina de Bragança, filha de D. João IV e de D. Luísa de Gusmão, que em 1662 casou com Carlos II de Inglaterra. Comemorando antecipadamente o evento, correram-se touros no Terreiro do Paço, em Outubro de 1661. Os autores do poético relato (http://purl.pt/12167/4/l-1277-1-a_PDF/l-1277-1-a_PDF_01-B-R0300/l-1277-1-a_0000_rosto-28_t01-B-R0300.pdf) são Izandro, Aonio e Luzindo, «toureiros de forcado». (Ilustração de Roque Gameiro)

sexta-feira, 13 de março de 2009

«The national champion bull-stabber» ou a força do mito Belmonte


Ei-lo. De chapéu de coco, gravata e sobretudo, na capa da revista americana «Time», de 5 de Janeiro de 1925. Juan Belmonte, o toreador, the national champion bull-stabber, o campeão nacional dos matadores de touros. Belmonte estava de passagem por Nova Iorque, a caminho do Perú. Em Manhattan, nota a «Time», aquele a quem chamaram o Pasmo de Triana passou despercebido; no Perú, pelo contrário, a sua chegada foi motivo de feriado nacional.
No artigo que dedica ao toureiro, a «Time» mostra porque já nessa altura era uma das melhores publicações do mundo. Num estilo escorreito, o jornalista traça o retrato de Belmonte, destacando a sua rivalidade com Gallito, e descreve aos leitores o essencial sobre a profissão de toureiro e a actividade tauromáquica - o «desporto nacional» espanhol. Um dos seus poucos deslizes(?) é o de chamar capeman ou capaderos aos peões de brega. A atenção da «Time» prova a força mítica de Juan Belmonte e a enorme popularidade de que já em 1925 gozava. Acarinhado por intelectuais e artistas, idolatrado por uma imensa falange de aficionados, a fama do trianero tinha chegado à América.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Um califa no Rossio

Rafael Guerra Guerrita (1862-1941) foi um dos maiores e mais famosos toureiros do século XIX. Com Lagartijo e Frascuelo, El Guerra é um dos pilares da tauromaquia da segunda metade de Oitocentos. Por ter sido um dos cinco grandes diestros nascidos em Córdoba, é considerado um dos cinco califas taurinos da cidade andaluza. Guerrita actuou inúmeras vezes em Lisboa, onde era idolatrado pela afición. A fotografia que se reproduz, datada de 16 de Maio de 1895, mostra o califa cordovês a cruzar o Largo D. João da Câmara, ao Rossio, num trem, a caminho do Campo Pequeno.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Sobre a naturalidade

«Cuadernos de Tauromaquia», uma das mais interessantes revistas taurinas do momento, vai no seu terceiro número. Ao mérito dos temas e à profundidade com que são abordados, soma-se um factor não neglicenciável para nós, portugueses: encontra-se facilmente à venda, quer em Lisboa quer no interior (sul, pelo menos) do país. Um dos atractivos deste nº 3 da revista é a rubrica Taurologías, na qual, a propósito do conceito de naturalidade no toureio e da personalidade do diestro sevilhano Pepe Luis Vázquez, se tecem pertinentes considerações.
Para Ángel Cervantes, o autor do texto, como certamente para muitos outros aficionados, a quietude é um dos conceitos mais valorizados no toureio dos nossos dias. Uma mão cheia de matadores importantes, como José Tomás, Miguel Ángel Perera, Alejandro Talavante, Sebastián Castella e outros, fazem da quietude o condimento essencial das suas lides. Imóveis, indiferentes ao furor do adversário, ligam passes num palmo de terreno. Tanta firmeza desperta a emoção do público e, naturalmente, o aplauso. Mas, questiona Ángel Cervantes, o que é feito da naturalidade? Porque além de cultivar o imobilismo, um toureiro deve também saber andar na cara do touro. Com elegância e sentido estético. Com arte.
E o que é a naturalidade para Ángel Cervantes? É a falta de artifício; a falta de afectação; a falta de cerimónia. Tudo qualidades que Pepe Luis, a quem chamaram o Sócrates de San Bernardo, possuía como poucos. Onde páram, hoje, estes conceitos? (Apunte de Venancio González Garcia)

segunda-feira, 9 de março de 2009

Passo a citar (III)

«Se nasces em Portugal e queres ser matador de toiros, tens de te ir embora. Aqui não. Tens de te sacrificar e dar o salto. É preciso ter uma paixão muito grande e estar completamente enamorado desta profissão»

Júlio Gomes (Novo Burladero, Março de 2009)